Voltamos a normalizar a transfobia
- Rodrigo Vasconcellos
- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de dez. de 2025
Nas últimas semanas, algumas pessoas têm se sentido confortáveis demais em dar opiniões preconceituosas. O que mudou?
Lembro de ter ficado incomodado na primeira vez que percebi uma série de atitudes (no mínimo) suspeitas por parte da pesquisadora Beatriz Bueno, apesar de, à época, acompanhar e gostar do seu trabalho acadêmico. Há não tanto tempo, em suas redes sociais, nas quais fala sobre raça e defende seu direito de se identificar como uma pessoa parda — "Parditude" parece um nome coerente para um perfil sobre esse assunto —, ela deu uma pausa na divulgação científica para criticar o show da Madonna, que aconteceu em Copacabana, no Rio de Janeiro, em 2024. O problema, aparentemente, foi a sexualização do corpo feminino, mesmo que a cantora seja famosa por não ter filtros em suas performances e há décadas desafiar os padrões conservadores. Podem ter sido comentários exagerados, mas ainda assim, foi uma opinião, e todos podemos emitir opiniões, certo?
Mais recentemente, porém, qualquer pessoa com um mínimo de discernimento percebe que a pesquisadora está, mais do que nunca, deixando de lado as opiniões e flertando com o discurso de ódio. A última polêmica foi uma publicação no X (antigo Twitter), criticando a inclusão de pessoas não binárias no sistema de cotas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) . “Não binário é um fenômeno de classe média e alta. Vai na quebrada ver quantas pessoas aderem a esse circo. Não basta ter grana em um país miserável a ponto de inventar opressões porque está entediado… agora também tem o privilégio de vagas reservadas”, disse. Confesso que, com personalidades da internet, não costumo ter nem um pouco de expectativa, mas ver uma pesquisadora, que deveria ter o mínimo de senso crítico, falando esse tipo de coisa, é sempre desanimador. Só que o buraco é mais em baixo: ela também associa a transgeneridade à pedofilia, fraude médica, e defende uma espécie de segregação entre pessoas cis e transgênero.

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra). No momento em que Beatriz escolheu atacar essas pessoas no país mais perigoso para a comunidade, ela também, intencionalmente, optou por apoiar e fomentar as estatísticas. As “opiniões” transfóbicas e preconceituosas das mais diferentes maneiras têm sido mais frequentes — com um aumento desde a grande bola de neve que foi a reeleição de Donald Trump, eu diria. Esse, porém, é apenas um dos sintomas de uma sociedade moralmente fragilizada, e até mesmo veículos com grande nome têm se sentido mais confortáveis em fazer publicações suspeitas: no último dia 26 de outubro, em uma opinião disfarçada de reportagem, a Folha de S.Paulo publicou um texto intitulado “Aliança LGB rompe com TQIA+ e prega contra identidade de gênero”. Em síntese, um pequeno movimento, irrisório, de pessoas gays, lésbicas e bissexuais (autointitulado “Aliança LGB”) se juntou contra as outras siglas, e um dos maiores jornais do país, que diariamente alcança milhões de pessoas, permitiu que um assunto de nível tão baixo fosse veiculado. É claro, a Folha não é conhecida por ter um viés progressista, mas quando sua fonte fala sobre “ideologia de gênero”, termo sem viés científico algum, inventado por extremistas, talvez esse seja o sinal divino de que você precisa para entender que está dando palco para maluco e derrubar a pauta.
E apesar de a maioria das pessoas estarem alheias ao assunto, a situação é grave e os casos de transfobia são crescentes. "Eles estavam esperando ela, esses três caras. E a agrediram violentamente. Perdi uma grande parceira, amiga, companheira", desabafou Edson Pereira, pai de Alice Alves, uma mulher trans de 33 anos que morreu no último domingo (9). Alice foi espancada em 23 de outubro, em Belo Horizonte-MG, passou por atendimento médico, foi liberada, perdeu 12 quilos, sofreu um choque séptico e 17 dias depois morreu, relata o G1. Como se não fosse humana, Alice simplesmente morreu — ou melhor, foi morta. Assassinada. Tiraram seu direito de viver apenas por ser uma mulher transgênero. Coincidentemente, três dias depois de ter acontecido o atentado, a Folha de S.Paulo publicou a matéria. Oito dias depois, Beatriz Bueno atacou pessoas não binárias. Quantas Alices terão que morrer para que entendamos que palavras também matam? São discursos de ódio que incentivam e legitimam os diferentes tipos de agressões que acontecem todos os dias. Existimos, resistimos e exigimos respeito. Não existe movimento LGBTI+ sem todas as siglas. Historicamente, as travestis e mulheres trans sempre estiveram na linha de frente na luta por direitos para todo o movimento. A incoerência de querer atirar esse grupo aos leões é grande, e banalizar a transfobia é, literalmente, apoiar e ser cúmplice da morte de milhares de pessoas.
Publicado por Gabriel Gatto
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