“Preto faz coisa de preto”: a exclusão de pessoas negras na comunidade geek
- Nicole Mendes
- 17 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
O universo geek sempre causou estranheza. Desde que o termo — que se refere a pessoas apaixonadas por jogos, filmes, músicas e cultura fora do considerado mainstream — se popularizou, esse grupo que comumente era associado ao diferente encontrou um lar. A comunidade geek tornou-se um espaço de acolhimento para aqueles que não se encaixavam, sendo um local seguro para expressar gostos e ser você mesmo, sem julgamentos. Apesar de ter uma definição abrangente, não é isso o que acontece na prática. Nem todos são bem recebidos por esse público, principalmente se você não for alguém branco.
Em 22 de novembro, a exibição ao vivo do quinto episódio do RPG Ordem Paranormal: Hexatombe foi ao ar simultaneamente no YouTube, na Twitch e na Kick, chegando a alcançar primeiro lugar nos assuntos mais comentados do X (ex-Twitter) Brasil. Entre as cenas mais faladas, o momento em que Dalmo, personagem interpretado por Richard Abelha, luta contra um rival da época em que era uma estrela dos ringues. Apesar da animação dos fãs, a resposta do público geral não foi tão positiva. Reações já tão conhecidas pelo público nerd encheram a internet, desde comentários acusando de ser vergonhoso até xingamentos capacitistas.
O que mais chamou a atenção, entretanto, foram os discursos direcionados não à sua atuação, mas à sua aparência. Tanto Dalmo quanto Abelha são homens negros, e o foco das reações foi justamente esse fato. “Um negão carioca desses passando essa vergonha pra se incluir em grupinho de branco” é uma das centenas de menções negativas à performance do ator que faziam questão de mencionar a sua raça. Dizer o que um preto deve ou não fazer é algo frequente não apenas entre os brancos mas entre os próprios negros. O negro é ensinado desde cedo que deve seguir um esteriótipo: ele precisa gostar de rap, pagode, vestir-se igual aos moradores do Brooklyn e, claro, não gostar do que é considerado de branco. Mas, afinal, o que é coisa de branco e de preto? Quem tem o direito de definir o que alguém pode ou não baseado na sua cor de pele?
Acontece que o negro vive uma crise de pertencimento em que, se não seguir algum esteriótipo, ele não é digno de existir. Enquanto brancos têm o direito de gostar do que quiserem, participar de subculturas e ter uma personalidade própria, pretos estão condicionados a viver dentro de uma caixinha em que esse modo de pensar é aprovado e incentivado por outros pretos. Pessoas negras que tanto lutam para conseguir acabar com estereótipos acabam repetindo as mesmas ideias combatidas todos os dias e se aproximam, sem perceber, de quem as oprime. O preto, então, fica nessa posição de não ter um espaço para chamar de seu, pois ele não é aceito em lugar nenhum.
A falta de espaço também é notável quando falamos de negros inseridos em outras partes do universo nerd. Assim como no caso do RPG, pessoas pretas também são duramente atacadas e deixadas de lado quando falamos de outros nichos da cultura geek, como nas comunidades de cosplay. Nessa última, a questão é um pouco mais delicada, já que os comentários racistas vão além da exclusão, mas também sobre esse grupo não ter as mesmas características físicas que alguns personagens, em especial quando falamos de obras asiáticas.
Foi esse mesmo discurso que provocou a morte de Ashley, com o nome de usuário “Squid Kidd 1111", no início de novembro nos Estados Unidos. Ash, de 20 anos, fazia cosplays de personagens de anime e jogos asiáticos e encontrou no suicídio uma saída para os diversos comentários racistas que recebia diariamente nas suas postagens em redes sociais digitais. A comunidade ocidental de fãs de animações japonesas, em específico, é presa pela semelhança entre caracterização e o personagem original, e com a grande quantidade de racistas presentes nesses espaços fãs negros ficam reféns desse discurso de ódio. A morte de Ash levantou o debate entre a comunidade cosplayer: será que estamos criando um espaço online seguro, principalmente para criadores negros? A aparência física não é, de fato, tão importante assim para uma fantasia, até porque, se etnia importasse tanto na hora de se fantasiar, não teriam cosplayers brancos se vestindo de personagens asiáticos e recebendo elogios por isso.
Novembro é conhecido como o mês da Consciência Negra, um espaço no ano para relembrar e celebrar a memória e a existência negra que construiu o país que conhecemos hoje. O período que usamos para refletir sobre como essa parcela ainda sofre e precisa de apoio não impede que essa população continue enfrentando violências, e o debate de como agressões racistas acontecem em espaços on-line e dentro da própria comunidade negra deve ser frequente. Pessoas pretas precisam sim se envolver com a cultura negra, incluindo produções criadas para e por esse povo. É importante estar em contato com a sua ancestralidade para, assim, reivindicar o seu lugar em uma sociedade racista que violenta a pele negra. Porém, não há problema em ter gostos que fogem desse nicho; até porque cada um tem uma personalidade distinta, e isso não é diferente com pessoas negras.
Publicado por Renan Mariath
.png)


