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A técnica que matou a alma? A crise da espontaneidade nos ensaios do Grupo Especial

  • Laura Machado
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

O rigor técnico cresce, a espontaneidade desaparece — e o desfile corre o risco de perder sua essência popular


Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os ensaios de rua e de quadra das escolas de samba do Grupo Especial para o Carnaval do Rio de 2026 levantam uma inquietação cada vez mais difícil de ignorar: onde foi parar a alma do samba? O que antes pulsava como força vital, de forma espontânea, vibrante e imperfeito, agora parece sufocado pela obsessão técnica da direção de carnaval e harmonia, que está transformando o desfile em algo milimetricamente controlado e distante da emoção que sempre foi a marca do carnaval carioca. A crítica de muitos componentes fazem já reverbera de forma forte: falta vida, verdade e povo dentro da Avenida. A sensação é a de que o quesito evolução, tão precioso e fundamental, passou a ser tratado como uma marcha militar, um deslocamento rígido que o componente é impedido de improvisar, sambar, olhar para os lados, ou se deixar levar pela vibração positiva.


Olhando para a história, percebemos o quanto essa transformação é recente e o quanto ela empobrece o espetáculo. Basta lembrar, por exemplo, da Portela dos anos 1970, que atravessava a avenida como um organismo vivo, sob um canto entoado por milhares de vozes em uníssono. Havia dança entre as alas, troca de energia e liberdade nos passos. Não se via aquela disciplina quase militar que hoje impera, mas, sim, uma escola que se movia ao sabor da emoção, não somente do cronômetro. Cito também a Beija-Flor da década de 1980, que consagrou a força ancestral de sua comunidade que se manifestava justamente na ausência total de engessamento. Era um caos vivo e funcionava. Era o povo ocupando seu lugar, não cumprindo marcação.


A Mangueira, então, é o exemplo mais eloquente de como a espontaneidade pode ser sinônimo de identidade. Durante décadas, a Estação Primeira desfilou com o improviso como marca registrada. Passistas criavam passos no calor do momento, alas aceleravam ou desaceleram de acordo com a marcação do surdo, componentes riam, choravam, cantavam olhando para as arquibancadas, dividindo a emoção com quem estivesse por perto. Não havia rigidez; havia afeto. Era desfile, mas também era rito, era encontro. E tudo isso acontecia sem que o quesito evolução fosse destruído. A Mocidade dos anos 1990 também reforça esse ponto: a  técnica e liberdade conviviam, e ninguém parecia ver contradição nisso. A escola era organizada, sim, mas era viva, cheia de personalidade, com componentes que expressavam ritmo e alegria sem medo de “sair da linha”.


Mesmo com a profissionalização do Carnaval nos anos 2000, que veio com carros alegóricos gigantes, coreógrafos premiados e comissões de frente inovadoras, ainda permitia espaço para a vibração espontânea. Quem teve o privilégio de ver a Vila Isabel de 2006, com o enredo “Soy loco por ti, América – A Vila canta a latinidade”, ou a Imperatriz de 2001, que trouxe “Cana-caiana, Cana Roxa, Cana Fita, Cana Preta, Amarela, Pernambuco... Quero Vê Descê o Suco, Na Pancada do Ganzá!”, sabe que é muito possível equilibrar competência técnica com emoção real. Mas, aos poucos, esse equilíbrio foi se desmanchando. A cultura do medo do julgamento cresceu, e a rigidez virou regra. Hoje, muitos ensaios lembram mais uma instrução militar do que um ensaio de escola de samba: alas estáticas, deslocamentos restritos, coreografias engessadas, componentes proibidos de cruzar a pista. A evolução se transformou em vigilância. E o resultado é um desfile cada vez mais focado nos quesitos de evolução e harmonia e cada vez menos pensado na emoção do desfilante.


A história mostra que o Carnaval nunca precisou ser assim para atingir excelência. Pelo contrário: sua grandeza sempre nasceu do encontro entre técnica e improviso, disciplina e liberdade, organização e humanidade. A espontaneidade não atrapalha a evolução, pelo contrário, ela a torna mais verdadeira, elevando a emoção do desfile. Quando o componente pode cantar da sua maneira, traduzir a dança para o seu corpo, ela o eleva. Quando há  possibilidade de reagir ao toque da bateria, o espetáculo ganha vida. Mas quando tudo isso é proibido, resta apenas a estética, e a estética sem alma dura muito pouco.


Publicado por Davi Guedes

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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