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Quando dizem que “preto não pode ser nerd”, o problema nunca é o RPG

  • Palloma Miranda
  • 17 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

Hobby: palavra importada do inglês que, em bom português, significa atividade feita por lazer, distração, prazer, divertimento e não por obrigação; passatempo favorito. Coisa que a gente faz porque gosta, porque relaxa, porque aquilo ajuda a vida a ficar menos pesada. Em tese, um território neutro: se é hobby, todo mundo pode. Na vida real, porém, muitos hobbies continuam cercados por cercas invisíveis – barreiras de classe, de gênero e, principalmente, de raça. A polêmica recente em torno do RPG Hexatombe, nova temporada de Ordem Paranormal, mostrou isso de forma clara.


Um clipe de Richard Abelha, criador de conteúdo negro e jogador da mesa, viralizou nas redes entre 23 e 26 de novembro de 2025. Na cena, ele mergulha com tudo na interpretação do personagem: voz, corpo, drama, exagero – o pacote completo de um RPG teatral transmitido ao vivo. Muita gente já acha o estilo de RPG do Cellbit “cringe”, “overacting”, “novelão”, e isso não é exatamente novidade na comunidade. Gosto é discutível, e ninguém é obrigado a gostar de Hexatombe. O problema é que boa parte da zoeira não ficou na crítica ao estilo: escorregou direto para o racismo.


De repente, a linha do tempo do X se encheu de comentários do tipo “negão passando vergonha pra entrar em grupinho de branco”, “preto forçando pra caber em coisa de branco”, e variações da ideia de que “RPG é coisa de branco, preto não tem que estar ali”. Não é mais “não gostei da cena”, é “não gostei da cena porque é um negro fazendo isso”. A atuação deixa de ser o foco; o alvo vira o corpo, a cor, o lugar social daquela pessoa. E aí deixa de ser piada sobre um programa de entretenimento e vira recado bem antigo: “esse lugar não é seu”.


“Nerd branco” como padrão e o papel da representatividade

Não é coincidência essa reação cair primeiro em cima do jogador negro. A cultura nerd mainstream foi construída, por décadas, baseada em protagonistas brancos – nos quadrinhos, nos filmes, nos games, nos livros. A consequência disso é que o “nerd padrão” no imaginário coletivo ainda é aquele cara branco, geralmente de classe média, com determinados gostos e referências. Tudo o que foge desse molde vira “estranho”, “forçado” ou “lacração”.


A falta de representatividade negra na cultura geek não é só uma questão estética; ela marginaliza as experiências de nerds negros e passa a mensagem de que eles são visitantes, não moradores legítimos daquele espaço. Quando um negro aparece como jogador numa mesa gigante, com produção profissional, câmera, luz e milhões de espectadores, muita gente simplesmente trava: “isso não combina”. O que não combina, na verdade, é o racismo internalizado com a realidade – porque, na vida real, negros jogam RPG, veem anime, colecionam HQ, fazem cosplay, escrevem fanfic, mestram campanhas, desenvolvem jogos.


Não é à toa que autores e criadores negros da cena nerd e de ficção especulativa vêm batendo na tecla da representatividade. Escritores como Ale Santos, por exemplo, falam abertamente de como cresceram sem ver possibilidades para si nesses espaços e de como novas narrativas negras vão mudando a imagem de quem pode ser nerd. Quando o público vê um jogador negro, uma streamer negra, um mestre negro em destaque, isso abre porta para que outros se reconheçam ali. O incômodo de parte da audiência não é com o grito dramático do personagem, mas, sim, com a quebra de um monopólio simbólico.


“Cringe” não é desculpa para racismo

Tem um ponto importante aqui: não gostar do RPG do Cellbit não é crime. Tem gente que acha a performance exagerada, que não curte a narrativa, acha o humor sem graça, e tudo bem. O problema começa quando a crítica estética vira escudo para alimentar o preconceito. Esse processo transforma a “crítica” em munição para reforçar hierarquias raciais.


É possível, e necessário, separar algumas coisas: você pode achar uma cena ruim, exagerada, mal atuada. Você pode achar um projeto cafona e bobo. O que você não pode é transformar isso em ataque à cor, à origem, ao lugar social da pessoa que está ali, como se a existência dela naquele hobby fosse um erro.


Quando alguém escreve, ainda que brincando, que “preto não pode jogar RPG”, está ecoando uma lógica que atravessa vários espaços: preto não pode surfar, não pode gostar de k-pop, não pode estudar latim, não pode tocar violino, não pode ser protagonista de fantasia medieval, não pode escrever sci-fi dura, não pode ser o nerd do grupo. Tudo isso não passa de variações da mesma tentativa de limitar a imaginação e o prazer de corpos negros.


E é curioso ver isso acontecendo justamente em um ambiente cuja matéria-prima é a imaginação. RPG é, na raiz, um jogo em que você interpreta outra pessoa, vive outras vidas, visita mundos que não existem. Se nem nesse território de fantasia alguns aceitam que um jogador negro tenha liberdade para performar alto, ser dramático, errar, acertar, chorar, rir… onde exatamente essa liberdade vai existir?


Exclusão como projeto social

O incômodo com o “preto nerd” não começa no clipe do Abelha. Ele é mais um capítulo de um projeto maior: o de manter pessoas negras longe de certos tipos de capital simbólico. Em um país como o Brasil, onde a desigualdade racial estrutura quem ocupa quais espaços na política, na economia, na mídia, também está em jogo quem ocupa os espaços no imaginário.


Quando a indústria cultural mostra majoritariamente heróis, cientistas, magos e aventureiros brancos, ela reforça quem é visto como protagonista do mundo real e fictício. Quando a comunidade reage mal a corpos negros ocupando esses lugares, ela está defendendo, ainda que inconscientemente, esse “direito adquirido” de ser o centro da narrativa. A cultura nerd, que poderia ser um terreno fértil para a diversidade, muitas vezes repete o padrão excludente da sociedade.


Por outro lado, ver nerds negros ocupando espaços, escrevendo livros, dando entrevistas, liderando mesas de RPG, criando canais e propondo universos afrofuturistas é exatamente o tipo de movimento que desafia esse projeto. Não é coincidência que os ataques mais pesados caiam sobre essas figuras quando ganham visibilidade. É a velha reação defensiva de quem se sente ameaçado pela simples presença do “outro” em um lugar que sempre considerou seu.


E agora, comunidade nerd?

Não dá para resumir a polêmica em torno de Hexatombe em um clipe viral; ela é um teste de estresse para a comunidade nerd brasileira. Não basta dizer “não sou racista”. A pergunta é: quando você vê esse tipo de ataque, você ri junto ou se posiciona? Você faz questão de separar crítica de ódio ou entra no combo “zoeira sem limites”? Você aceita que a cultura que você ama seja usada como desculpa para afastar pessoas negras, ou entende que esse espaço também é delas?


Se hobby é, por definição, uma atividade praticada por prazer, lazer e divertimento, sem obrigação, então ninguém devia ter que defender a própria existência para poder ter um. Abelha não deveria precisar escrever “tem algo errado nesse discurso…” para que o óbvio fosse visto: errado não é um homem negro dramatizando em um RPG; errado é uma sociedade que acha isso motivo para atacá-lo por ser negro.


A pergunta que fica para a comunidade nerd é simples e incômoda: você quer ser o grupo que reproduz o mesmo tipo de exclusão que sempre criticou – agora direcionada a quem é diferente de você – ou quer ser o grupo que entende que imaginação, fantasia e jogo de faz de conta só fazem sentido quando todo mundo pode brincar?


Sejamos sinceros: se o seu entretenimento depende de limitar quem pode se divertir, o hobby que está “cringe” não é o RPG – é o seu racismo disfarçado de piada.

Publicado por Renan Mariath

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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