Um sebo de pai para filhos
- Esther Ferreira
- 8 de out. de 2025
- 5 min de leitura
No centro do Rio, o sebo Academia do Saber resiste há 42 anos frente ao fechamento de cerca de 80 livrarias da região

No local onde funcionava uma loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, fica a mais recente unidade da Academia do Saber, um dos últimos 20 sebos que resistem no Rio de Janeiro. Sentado atrás de um balcão à direita da porta de entrada, o dono do sebo, Ricardo Pereira, atende uma senhora que entrou em busca do livro 500 Canções Brasileiras, de Ermelinda Paz. “Ó, a gente abriu atendimento pelo WhatsApp. Sebo é uma caixinha de surpresas, a gente nunca sabe o que está chegando. Quando a senhora lembrar, mande uma mensagem, se tiver chegado, eu aviso a senhora”, respondeu Ricardo. A moça agradeceu e deixou a loja logo em seguida.
Apesar do contraste entre o velho e o novo — no qual o acervo de livros de segunda mão abastece, ao mesmo tempo, as prateleiras do sebo e as lojinhas virtuais em diferentes plataformas —, o estabelecimento segue firme. O comércio familiar, administrado por Ricardo e seus dois irmãos, existe há 42 anos e tem três unidades espalhadas pela região da Praça Tiradentes, no Centro. Essa história, no entanto, começa bem antes, com o pai dos três, Mário Leonardo Pereira, que inaugurou a primeira loja na Rua da Constituição. Dois filhos de Ricardo também entraram para o ramo, fechando um ciclo que passou do pai aos netos.
Para o comerciante, a presença cada vez maior de sebos no mercado digital impactou diretamente no perfil de quem consome esses livros. O surgimento de sites como Estante Virtual foi um dos impulsionadores desse processo, que fez com que boa parte das lojas físicas se rendessem às vendas on-line. A pandemia intensificou ainda mais essa mudança, e foi o ponto de virada para a Academia do Saber, que passou a trabalhar exclusivamente com lojas virtuais nesse período.
Um retrato desse cenário é o número de sebos e livreiros registrados na cidade do Rio de Janeiro na Estante Virtual. As mais de 700 lojas on-line cadastradas no site contrastam com uma realidade muito diferente das lojas físicas. De acordo com o Guia de Livrarias da Cidade do Rio de Janeiro, editado pela Associação Estadual de Livrarias do Rio, foram contabilizados 26 sebos na capital carioca, sendo 16 deles no Centro.
Embora a força-tarefa para levantar os canais de venda on-line tenha sido para lá de promissora — segundo ele, atualmente dois terços do lucro do estabelecimento provêm das vendas via internet —, a troca do off-line pelo on-line nem sempre é tão justa. “Quando você vai na internet buscar um livro, você vai buscar aquele livro específico. Aqui na loja física, se você quiser Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, você vai passar no corredor para pegar o livro e vai pensar ‘vou aproveitar e pegar o Fábulas também’”, explica.
Ele aponta que, antes, chegavam clientes de longe para comprar grandes remessas de livros, seja para distribuir para outros lugares, seja para revender a colecionadores. “Uma cliente minha vinha de Minas Gerais a cada 40 dias e gastava mais de sete mil reais em livros. Agora, quem está lá em Minas entra na Estante Virtual, Amazon, Mercado Livre e compra diretamente”.

Caminhando sobre os azulejos antigos do charmoso salão, Ricardo começa a mostrar o acervo, que atualmente soma 180 mil produtos, entre livros, revistas e HQs. Em um canto, próximo ao balcão da entrada, há diversas sacolas no chão com coleções de enciclopédias enormes, livros de fotografia e mais alguns livros de gêneros variados. São os títulos vendidos pelo WhatsApp ou por telefone, reservados para serem entregues por funcionários da loja em vários bairros do Rio. Ele conta que um dos clientes que tem o costume de comprar dessa forma, sem o intermédio de plataformas, é o jornalista e escritor Ruy Castro. Membro da Academia Brasileira de Letras e autor de biografias de grandes personalidades brasileiras, Castro costuma ligar para Ricardo quando precisa de bibliografia para a pesquisa de novos trabalhos.
Do lado esquerdo da loja, uma mesa comprida com tampo de vidro guarda uma porção de materiais. Um tubo de cola branca, uma tesoura, flanelinhas de microfibra e uma pequena lixa estão dispostos sobre o móvel em meio a uma pilha de livros. Separados da pilha, estão um exemplar surrado de A mulher desiludida, de Simone de Beauvoir, e um mais detonado ainda, em capa dura. Ele pega o segundo livro e começa a esfregar a lombada com um pano, que sai completamente sujo. “Está vendo, né? Não dá para vender desse jeito. Além de limpar, ainda é preciso lixar as bordas da capa e passar uma tesourinha para alinhar as páginas mais danificadas”, aponta o administrador do sebo. No final do salão, incontáveis livros estão na fila para passar por esse processo de restauração: “É muito trabalhoso, quando é que você acha que eu vou acabar de limpar isso? Daqui a pouco chegam mais cem, duzentos livros…”.

Além dos livros, Ricardo vendeu até móveis no estabelecimento: “Eu já vendi até cadeira aqui. Fui comprar livros no Leblon e a moça tinha umas cadeiras lá, eu gostei e perguntei se ela queria me vender. Eu trouxe para que o pessoal que vem aqui tivesse lugar para sentar. Aí chegou um cliente, disse que a cadeira era de um designer, e perguntou se eu venderia”.
A veia de comerciante também o proporcionou alguns achados ao garimpar livros pela cidade — como quando encontrou um livro assinado pela ordem religiosa Companhia de Jesus, datado do século XVII, que estava esquecido em um ferro-velho. Quanto perguntado sobre a possibilidade de leiloar obras desse tipo, o dono da Academia do Saber diz que prefere priorizar seus clientes. “No leilão eu vou vender para um cara lá de Brasília, de São Paulo, do Rio Grande do Sul. Mas ele não é o meu cliente. Eu prefiro demorar um tempo maior pra vender para quem me conhece”, afirma.
Antes de seguir os passos do pai, Ricardo conta que tinha o sonho de abrir uma pousada. Formado em Turismo, teve um terreno em Santa Cruz Cabrália, município baiano vizinho a Porto Seguro, onde tinha o plano de construir o empreendimento. Não conseguiu levar a ideia adiante. Vive a contradição de que, embora tenha crescido com livros ao seu redor, não tem o costume de ler tanto; disse ler uns sete livros por ano, no máximo.
Enquanto falava de seus planos da juventude, foi interrompido por um senhor de cabelo e barba brancos, um cliente conhecido, que elogiou o novo ponto: “Está ficando muito bom, tem muito mais espaço”. Ricardo completou dizendo que, apesar da mudança de rumos, encontrou a satisfação do trabalho no cotidiano, no dia a dia em meio aos clientes: “Tem gente que trabalha só pelo dinheiro, mas tem outros prazeres além do valor financeiro, e isso é muito legal.”
Publicado por Camily França.
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