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Entre o romance e a violência: o que explica o fenômeno do dark romance no Brasil?

  • Ana Carolina Henriques e Geovana Pessôa
  • 17 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

Com milhões de visualizações nas redes sociais, esse universo literário reúne narrativas de violência, traumas e romance, conquistando cada vez mais leitoras brasileiras e abrindo espaço para criadoras independentes e editoras


A escritora Zoe X é um dos nomes mais famosos do dark romance no Brasil. (Foto: reprodução/Instagram @autorazoex)
A escritora Zoe X é um dos nomes mais famosos do dark romance no Brasil. (Foto: reprodução/Instagram @autorazoex)

O dark romance, subgênero marcado por tramas intensas, emocionalmente carregadas e frequentemente controversas, tem tido um crescimento acelerado no Brasil. São histórias que retratam violência contra mulher, bullying e tortura, levantando discussões no cenário literário sobre o estilo de romance. Desde 2022, a ferramenta do Google Trends registrou um aumento quase contínuo nas buscas por esse tipo de leitura, com o auge das pesquisas em fevereiro de 2024. No TikTok, a hashtag #darkromance ultrapassa mais de 1,5 milhão de vídeos publicados, totalizando mais de 8,4 bilhões de visualizações.


Além disso, no Brasil, há uma presença significativa de autoras independentes que escrevem e publicam dark romance de forma independente, aproveitando plataformas digitais, como Instagram e Tik Tok, para alcançar leitoras de maneira direta. A pesquisa deste ano da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizada pela Nielsen BookData, que analisa os hábitos de compra dos consumidores de livros, mostrou que romances com teor sexual — categoria em que o dark romance frequentemente se insere — lideram a leitura digital no país. Os e-books se destacam, especialmente os gêneros erótico e romance contemporâneo, que figuram entre os mais consumidos dentro do Kindle Unlimited no Brasil. Sites de venda, como Amazon e Estante Virtual, concentram grande parte dos títulos dessa temática, mostrando que as escritoras que exploram esses temas encontram um público numeroso e engajado com um fenômeno que parece estar longe de ter fim. 


O Book Tok como impulsionador do dark romance

O TikTok se tornou uma plataforma central para o dark romance no Brasil, impulsionando lançamentos, relançamentos e a projeção de autores nacionais e internacionais. A comunidade BookTok, como é conhecida pelos criadores de conteúdo que falam sobre livros, tem sido fundamental para levar o gênero aos holofotes. A hashtag #BookTokBrasil já acumula milhões de visualizações, com vídeos que mostram resenhas emocionais, além dos famosos edits de obras literárias que fascinam jovens leitoras à procura de mais histórias. 


Esse poder de influência é também percebido pelas editoras. Os booktokers impactam diretamente as vendas de ficção jovem e romance, em razão disso, empresas criam parcerias com esses influenciadores para promover livros e aumentar as vendas. Segundo uma matéria da CNN Brasil publicada em junho, os livros mais vendidos durante a Bienal do Livro de 2025, no Rio de Janeiro, eram justamente os que mais circulavam na rede do TikTok. Isso aponta que grande parte do crescimento das vendas literárias entre públicos jovens se relaciona com o conteúdo gerado por criadores dessa plataforma. 


Zoe X – o fenômeno do dark romance no Brasil

Esse movimento do BookTok tem permitido a ascensão de autoras brasileiras de dark romance que começaram se autopublicando em espaços digitais — como em plataformas do Kindle Unlimited — e hoje veem suas obras em livrarias. Um exemplo emblemático é a autora Zoe X, cujo livro Amor Profano teve forte procura na pré-venda da Amazon e em redes de livrarias como a Leitura, o que levou a Faro Editorial a fazer uma segunda tiragem. Zoe X, pseudônimo da escritora, é um dos nomes mais comentados entre o gênero do dark romance brasileiro. Seus livros estão nas listas de mais vendidos na Amazon, chegando ao primeiro lugar no ranking da loja do Kindle diversas vezes. 


Os livros de Zoe agregam narrativas de bullying entre os protagonistas, violência sexual contra personagens femininas e diversas outras formas de agressão e tortura direcionadas a elas. Embora sejam discutidos temas perturbadores e que envolvam gatilhos, as obras da autora recebem críticas positivas. As avaliações de seu livro Bad Prince, na Amazon, por exemplo, por leitores anônimos, ressaltam aspectos elogiosos da obra:


“Simplesmente incrível. Bad Prince não é apenas um romance — é uma experiência emocional profunda e arrebatadora. As referências a grandes obras da literatura, como ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, ‘Orgulho e Preconceito’, ‘Razão e Sensibilidade’, ‘Persuasão’, adicionam camadas de complexidade e encanto à narrativa.”


“Como posso colocar em palavras o que senti ao ler esse livro? Ele te consome e você consegue sentir tudo de forma tão explícita... A dor, a mágoa, o ressentimento, o ódio... o AMOR.”.


Essa comparação com obras clássicas do romantismo não é casual: livros como O Morro dos Ventos Uivantes já exploraram relações intensas, marcadas por ciúme, obsessão e destruição emocional, elementos que hoje reaparecem sob o rótulo de dark romance. Do mesmo modo, títulos de Jane Austen, mencionados pelos leitores, abordam pressões sociais, desigualdades de gênero e disputas de poder nas relações afetivas, ainda que dentro de limites éticos distintos. A invocação desses cânones funciona tanto como estratégia de legitimação literária quanto como tentativa de mostrar que o fascínio por romances conturbados não é exclusivo da ficção contemporânea. A diferença está no modo de representação: se os clássicos tratam o sofrimento amoroso com maior sutileza e crítica social, o dark romance tende a intensificar elementos de violência e dominação, às vezes flertando com sua glamourização.


A perspectiva das leitoras nisso tudo 

A professora de natação, Carolyna Oliveira, de 24 anos, conheceu os livros de dark romance por meio das redes sociais, principalmente em vídeos e tweets que viralizaram e, a partir dali, iniciou a consumir obras dessa temática: “Eu descobri essas histórias através das redes sociais mesmo, indicação de pessoas em vídeos ou até mesmo em tweets. Eu selecionava as que pareciam ter as cenas mais legais para poder ir procurar para ler”. 


Segundo ela, o que mais desperta o interesse por essas histórias não está necessariamente no conteúdo explícito, mas na construção de tramas carregadas de tensão e imprevisibilidade: “O que mais me atrai? Acho que talvez seja todo o ‘circo’ que é montado para um enredo meio caótico”. Para a professora, os elementos característicos do dark romance, como a violência e a submissão feminina, aparecem como recursos narrativos que a levam a querer descobrir até onde os personagens estão dispostos a ir — sem que isso reflita em seus gostos pessoais: “não que eu tenha um relacionamento assim, jamais. Mas é algo tão absurdo que me atrai continuar lendo para ver até que ponto os personagens acabam indo”. 


Carolyna também já consumiu conteúdos relacionados ao true crime (casos reais) e reconhece que isso contribui para seu interesse por temas difíceis ou ainda perturbadores: “eu já fui bem viciada em true crime, então eu tenho um certo interesse mórbido para ir querer atrás desse tipo de conteúdo”. Mas ela também reconhece os temas sensíveis levantados nas obras e, por isso, prefere abrir mão da leitura quando ultrapassa dos limites: “mesmo sendo ficção ou não, só que tem limites; pra mim, quando já passa de algo que está violando a pessoa, eu já largo de mão”. 


Apesar de já ter se envolvido intensamente com o gênero, hoje abandona facilmente leituras que se tornam repetitivas ou centradas em atos de violência e sexo explícito: “quando algo passa do que era para entreter e fica só em violência e sexo, já me satura”, explica Carolyna. Ela diz que prefere histórias mais elaboradas, com construções narrativas envolventes, e não tramas focadas em ciclos de agressões e relações forçadas: “eu curto um plot [enredo] bem elaborado, com um fim, não um ciclo sádico onde só se tem cenas de sexo”, afirma a professora de natação. 


As motivações entre as leitoras variam conforme suas preferências literárias e bagagens culturais individuais, revelando públicos heterogêneos dentro do universo do dark romance. Essa diversidade de olhares ajuda a explicar o novo cenário do subgênero no Brasil, ampliando sua presença no mercado ao mesmo tempo em que cresce apoiado pelas expectativas de uma comunidade já consolidada. 


Responsabilidade, romantização e limites do gênero

O crescimento do dark romance reacende debates sobre responsabilidade narrativa e os limites entre representação e romantização da violência. Embora o gênero parta da premissa de explorar temas sombrios e limites morais, muitos críticos e especialistas apontam que a linha entre problematizar e glamourizar situações abusivas pode ser tênue, especialmente quando o público majoritário é jovem e em formação emocional. 


Autoras e leitoras defendem que o dark romance funciona como um espaço seguro para explorar fantasias e traumas, permitindo que temas difíceis sejam vivenciados em um ambiente controlado. No entanto, isso exige responsabilidade tanto de quem escreve quanto de quem publica e promove. Avisos de gatilho, contextualização das violências retratadas e comunicação transparente sobre o caráter ficcional dessas narrativas são práticas cada vez mais esperadas. Além disso, há uma discussão crescente sobre como evitar reforçar estereótipos prejudiciais ou normalizar padrões abusivos enquanto se mantém a essência obscura e intensa do gênero.


Assim, o debate sobre os limites do dark romance não se resume à censura, mas, sim, à consciência crítica: como criar histórias provocativas sem desconsiderar o impacto emocional e social de seus temas? Como equilibrar liberdade criativa e responsabilidade cultural em um gênero que, por definição, transgride?


Rumos do gênero no Brasil

À medida que o dark romance ganha espaço no país, o cenário brasileiro aponta para uma consolidação cada vez maior do estilo. Com comunidades significativamente engajadas no TikTok e no Instagram, o Brasil se tornou um terreno fértil para o crescimento desse tipo de literatura. Editoras já reconhecem o potencial comercial e, cada vez mais, investem em autoras nacionais, tiragens ampliadas e marketing direcionado ao público jovem adulto.


Conforme o gênero se populariza, também cresce o debate público sobre suas implicações culturais. A discussão sobre limites, representatividade e responsabilidade narrativa tende a influenciar autoras, leitoras e editoras, criando um ambiente em que esse fenômeno literário pode amadurecer sem perder sua essência provocativa. 


Com uma base de fãs em expansão, influência constante das redes sociais e interesse crescente das editoras, o dark romance no Brasil vem se constituindo como um fenômeno da ficção contemporânea, desafiando fronteiras, despertando emoções intensas e abrindo discussões profundas sobre os limites da literatura popular. 


Publicado por Alexandre Augusto


Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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