O poder da nostalgia: quem matou Odete Roitman e a estratégia por trás das novelas refeitas
- Gabriel Machado e Matheus Rogers
- 17 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
A cena tornou-se histórica. Em 1988, a morte de Odete Roitman e o mistério sobre o assassino marcaram para sempre a novela "Vale Tudo", exibida pela Rede Globo. O episódio não foi apenas um ponto alto da trama; foi um fenômeno que parou o Brasil e gerou conversas em todos os lugares. 37 anos depois, em 2025, o mesmo momento dramático foi regravado para um público novo, que consome televisão de forma muito diferente. A decisão de refazer essa cena não foi por acaso. Ela faz parte de uma estratégia consciente da indústria do entretenimento de reviver histórias que já foram sucesso. A nova versão de Vale Tudo serve como exemplo para entender como a nostalgia virou um produto na televisão brasileira.
O fotógrafo Eberson Teodoro, em reportagem da revista DUO, resume o sentimento de muitas pessoas frente a esse resgate do passado:
"Gosto de ler jornais e revistas antigos e, claro, tenho enorme interesse por novelas antigas. A moda, os cabelos, o jeito que as pessoas tinham de falar. Personagens fumando até em sala de espera de maternidade. São costumes e valores de outros tempos e que, quem sabe, podem explicar quem somos hoje."
Contudo, esse movimento de refazer novelas não é isolado. "Pantanal", "Éramos Seis" e "O Direito de Nascer" são outros exemplos que mostram essa cada vez mais recorrente tendência. No momento em que as plataformas de streaming crescem, as emissoras de TV tradicionais encontraram uma forma de se manter relevantes: apostar em histórias que o público já conhece e ama. Do ponto de vista dos negócios, a estratégia faz sentido.
Para o público, essas histórias refeitas funcionam como um porto seguro. Tanto nos anos 1980 quanto nos anos 2020, o Brasil passava por momentos de crise e incerteza. Assistir a uma história conhecida, mesmo que com novas roupagens, traz uma sensação de conforto. As pessoas curtem comparar as versões, e isso gera conversas nas redes sociais digitais. A novela refeita acaba sendo uma ponte entre gerações: os mais velhos revivem memórias, e os mais jovens têm a chance de conhecer uma história que fez sucesso no passado. A atriz Bella Campos, que interpretou Maria de Fátima em Vale Tudo de 2025, reflete, em entrevista para o podcast do Gshow “Papo de Novela”, sobre a complexidade e a expectativa que envolve reviver um personagem para uma nova geração de telespectadores:
"É importante a gente se ver representado em múltiplos papéis. [...] Acho que a expectativa desse momento do Rio de Janeiro é justamente de poder ver uma personagem preta sendo muito patricinha, sendo muito fútil também, porque a gente tem o direito de ser fútil."
Mas adaptar uma novela clássica não é simples. Os autores precisam equilibrar o respeito ao original com a necessidade de modernizar a história. Em Vale Tudo, a personagem Maria de Fátima, vivida por Glória Pires em 1988, era uma modelo em busca de ascensão social que atuava nos bastidores da elite. Na versão de 2025, Fátima segue ambiciosa, mas sua arena de poder migrou para as telas: tornou-se uma influenciadora digital que constrói sua imagem publicamente. Essa atualização vai além da mudança de profissão – mostra como os mecanismos de influência e a sede por reconhecimento se transformaram radicalmente, transferindo o jogo de poder dos salões exclusivos para a praça pública das redes.
Apesar do cuidado, essas adaptações nem sempre agradam a todos. Alguns críticos apontam que, para tornar a história mais palatável ao público atual, a complexidade dos personagens pode ter sido reduzida. Como Walcyr Carrasco já disse sobre a adaptação de clássicos à época do lançamento de “Gabriela” de 2012 ao portal Terra: "Não dá para colocar tudo na TV, é preciso aparar os excessos. Nessa troca de linguagem, preciso respeitar o livro [ou obra original], o autor e ainda dar conta de um produto de entretenimento para as massas." O grande desafio dos autores é conseguir ser fiel ao espírito da obra original, sem simplesmente copiá-la, criando algo que tenha valor por si só e consiga engajar o público atual.”
Contudo, um dos diferenciais mais extremos entre a audiência de 2025 e a de 1988 é a velocidade que o feedback é recebido, e o símbolo mais nítido dessa troca rápida de opiniões é a rede social X (antigo Twitter). A seguir, seguem alguns posts da rede que mostram opiniões diversas sobre a versão atual de Vale Tudo:
No fim, a onda de refilmagens como Vale Tudo revela uma indústria cultural que busca segurança em tempos de mudança. Se por um lado essa estratégia traz retorno garantido, por outro, faz questionar se a televisão brasileira está se tornando um museu de suas próprias glórias, crítica feita com frequência também para Hollywood, com seus constantes reboots e sequências de antigas franquias. O ator Antonio Fagundes reflete esse sentimento em uma declaração dada no programa Roda Viva (TV Cultura), em 23 de setembro de 2024: "Não sei te dizer o que aconteceu, mas parece que as pessoas pararam de investir na criação."
Dessa forma, a morte de Odete Roitman significou algo e teve certamente um impacto significativo, mas que não se compara com a versão de 1988, por diversos fatores. A profissional de relações públicas Carolina Ramalho estuda a construção da personagem no mestrado em Comunicação da Uerj, e explica que o motivo da diferença entre as versões está mais ligado ao contexto social do que à personagem em si.
Ela afirma que, na versão de 1988, a Odete de Beatriz Segall era uma "vilã absoluta", que representava tudo o que o Brasil da época rejeitava, como a "elite corrupta, a impunidade, o egoísmo extremo", sendo uma personagem odiada pelo público.
Já a Odete de Débora Bloch, em 2025, foi construída com mais camadas, humanidade e até traços cômicos, surgindo em outro registro e já em diálogo com a memória afetiva do público. Ramalho observou que isso impacta a recepção, pois hoje os vilões são frequentemente "amados" e o público consegue separar o julgamento moral da força da atuação.
Em resumo, ela conclui que, enquanto a morte em 1988 refletia um Brasil que precisava punir seus "demônios" exemplarmente, a discussão em 2025 reflete um público mais ambíguo e acostumado a personagens complexos e a uma moralidade menos maniqueísta.
Portanto, o que fica evidente é que, mesmo a morte de uma vilã de novela nos anos 1980 pode dizer muito, seja sobre a sociedade, seja sobre o atual estado da indústria do entretenimento. E, diferentemente da maioria, essa é uma morte que ecoa – e talvez seja esse o poder da nostalgia.
Publicado por Isabella Topfer
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