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Quando o metanol mata, revela-se uma falha do Estado

  • Julia Freitas e Rodrigo Vasconcellos
  • 3 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

A recente tragédia da contaminação de bebidas alcoólicas com metanol no Brasil escancara não apenas um crime, mas uma falha sistêmica

                  

Foto: Freepik
Foto: Freepik

Nos últimos meses, múltiplos casos de ingestão de bebidas adulteradas com metanol mostraram que o perigo está longe de residir apenas na bebida clandestina: trata-se de um conjunto de lacunas que envolvem fiscalização, responsabilização, comunicação pública e estrutura institucional. A substância letal não escolhe vítima por sorte, mas pelas brechas que permitiram a circulação de produtos inseguros.


Em São Paulo, segundo dados do Ministério da Saúde, até o final de outubro de 2025 foram confirmados 59 casos e 10 óbitos de intoxicação por metanol após consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Entre as vítimas, estão trabalhadores, jovens em festas e consumidores que jamais imaginaram que uma simples dose de destilado poderia se transformar em sentença.


A negligência institucional

Se o risco está claro, a resposta institucional não corresponde da mesma forma. A primeira falha é evidente, a fiscalização sanitária chegou atrasada: os casos só foram identificados em massa depois que as vítimas já estavam internadas ou mortas. Isso revela ausência de monitoramento preventivo eficaz e, em muitos casos, uma estrutura de governança do risco que age apenas em modo de emergência.


Outro ponto é que as empresas e os distribuidores, inclusive aqueles inseridos em canais formais, compartilham da responsabilidade. A lógica da margem de lucro acima da segurança e da cadeia produtiva sem rastreabilidade visível torna o consumidor vulnerável. E o Estado, mais uma vez, falhou não apenas em vigiar, mas também em prevenir.


O resultado é um retrato de ineficiência: órgãos que não se comunicam, investigações que se arrastam e punições que raramente produzem efeito. Um país que não consegue garantir segurança no que é servido em seus bares e restaurantes fracassa no básico – proteger a vida.


A nova pandemia: o medo no copo e a mudança do paladar urbano

Se a pandemia de 2020 nos ensinou sobre medo e isolamento, a crise do metanol em 2025 se tornou, para o universo das bebidas, uma nova forma de contágio. O medo do envenenamento tomou o lugar do medo do vírus. E, mais uma vez, São Paulo foi o epicentro da crise.

Nas últimas semanas, circulando por bares e restaurantes da cidade, percebi um comportamento que ainda não aparece em estatísticas, mas já é visível a olho nu: os destilados estão sendo deixados de lado. Aquele copo de gim-tônica que dominava as mesas dos bares e calçadas deu lugar a taças de vinho, cervejas artesanais e coquetéis reinventados, feitos sem cachaça, vodca ou uísque.


A Modern Mamma Osteria, em Pinheiros, é um exemplo claro dessa virada. O restaurante, conhecido por unir gastronomia italiana e coquetelaria autoral, lançou recentemente uma carta de drinks sem destilados, baseada em fermentados, kombuchas e infusões naturais. O movimento não é isolado: outros espaços da capital, sobretudo os que buscam público mais jovem, têm experimentado versões seguras de coquetéis — o spritz de vinho, o negroni de fermentado, o gin-free com ervas.


Ainda que não existam dados oficiais ligando diretamente a crise do metanol à queda nas vendas de destilados, há sinais de uma mudança de hábito. Entre conversas de balcão e cardápios repensados, paira o mesmo raciocínio: é melhor evitar o risco. A confiança no copo – algo que parecia garantido – hoje é conquistada, não presumida.


Talvez estejamos vivendo uma espécie de desdestilação cultural, um processo em que o prazer do álcool se desloca do teor para a experiência e do risco para a confiança. Beber deixou de ser gesto inconsequente para se tornar escolha consciente – um ato de proteção, mas também de posicionamento.


Publicado por Leandro Climaco Mendonça

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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