Da pressão climática à geopolítica: o que a COP30 revela sobre o futuro da energia limpa e da política internacional?
- João Gabriel Nicolli e Júlia Scárdua
- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
Conferência evidencia como disputas econômicas e políticas ainda travam a adoção de energias limpas, apesar do consenso científico em torno da crise climática

A COP30, 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Belém, no mês de novembro, terminou marcada não só por avanços diplomáticos importantes, mas também por frustrações que dominaram a reta final das negociações. O encontro, que reuniu a comunidade internacional para discutir e definir caminhos de combate ao aquecimento global, aprovou metas inéditas para adaptação e reforçou a necessidade de ampliar o financiamento climático.
No entanto, o texto final não mencionou uma considerável redução no uso dos combustíveis fósseis, ponto considerado central por cientistas e parte da comunidade internacional. O resultado expôs a força dos países produtores de petróleo e mostrou que, mesmo em um momento decisivo para frear a crise climática, a política internacional ainda fala mais alto que a ciência.
Segundo o professor de Relações Internacionais da Uerj Willams Gonçalves, embora o encontro tenha reafirmado a urgência da transição para energias limpas, o debate voltou a esbarrar na falta de compromisso financeiro dos países desenvolvidos. Na prática, as nações mais pobres continuam aguardando os recursos prometidos para viabilizar essa mudança.
— Há um consenso científico sobre a necessidade urgente de abandonar os combustíveis fósseis, mas a transição energética não é igual para todos. Os países ricos, que historicamente devastaram seus ambientes durante a industrialização, agora exigem padrões mais limpos das nações mais pobres sem oferecer a compensação necessária. O resultado é que a pauta ambiental, embora legítima, continua subordinada à lógica do poder e aos interesses do capitalismo global — afirmou Gonçalves.
De acordo com o professor, a disputa política entre Estados, e não a falta de evidências científicas, é o principal obstáculo. A conferência deixou evidente que as decisões finais seguem condicionadas pela resistência das grandes potências em abrir mão de vantagens econômicas e assumir responsabilidades proporcionais à sua história de emissões.
Gonçalves também aponta para a dinâmica de disputa entre a urgência climática e a lógica de lucro que organiza o sistema internacional. A transição para energias limpas não depende apenas de vontade política ou evidências científicas, mas de estruturas econômicas profundamente desiguais. Estados cuja economia depende fortemente de combustíveis fósseis resistem a mudanças rápidas, enquanto nações com matrizes diversificadas, como o Brasil, surgem como candidatas naturais à liderança climática.
— A transição energética não esbarra na ciência, mas no capitalismo: custos, lucros e poder moldam quem avança e quem resiste. Países com maior diversidade energética, como o Brasil, têm mais condições de liderar esse processo — finalizou o professor de Relações Internacionais.
Entre os temas que mais mobilizaram a COP30, esteve o Mapa do Caminho, proposta liderada pelo Brasil para estabelecer um roteiro de redução gradual dos combustíveis fósseis. Apesar do apoio de mais de 80 países, o texto não entrou na decisão final da conferência por falta de unanimidade, requisito para aprovação dentro da Convenção do Clima.
A conferência também deixou como saldo a criação de novos grupos de trabalho para elaborar, fora do escopo direto da Organização das Nações Unidas (ONU), dois roteiros paralelos: um dedicado à transição energética e outro ao combate ao desmatamento. A decisão ocorreu após a impossibilidade de consenso entre países produtores e não produtores de petróleo.
Ao mesmo tempo, a COP30 avançou na consolidação da Meta Global de Adaptação, estabelecendo indicadores comuns para monitorar a vulnerabilidade climática, embora sua implementação ainda dependa da definição de fontes e valores de financiamento.
Com o encerramento do encontro em Belém, a atenção internacional se volta agora para as próximas etapas do processo climático. A COP31, marcada para 2026 na Turquia, deve retomar discussões sobre o financiamento de longo prazo, o ritmo da transição energética e os compromissos atualizados de mitigação dos países.
Publicado por Geovana Costa
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