top of page

O que o novo filme protagonizado pelo Wagner Moura e uma das programações da COP30 têm em comum?

  • Laura Marques
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

A resposta avança em muitas camadas, mas já te adianto que ambas expõem como o Brasil ainda hesita em reconhecer o valor da própria cultura popular, seja no cinema, seja nos eventos globais


Foto: montagem de Laura Marques, com imagens de divulgação do Ministério do Turismo e da Rádio Agência Brasil.
Foto: montagem de Laura Marques, com imagens de divulgação do Ministério do Turismo e da Rádio Agência Brasil.

“Singular e glorioso.” Assim foi definido O Agente Secreto (CinemaScópio, MK Production e Arte France Cinéma, 160 min), dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura. O filme transporta o público para a década de 1970, pleno período da ditadura militar, com direito a lendas urbanas, telegramas e ausência total de internet. O enredo conta a história de um casal perseguido por grupos regionais articulados e com poder de ação em pleno regime militar.


A cidade de Recife se torna palco de perseguições, assassinatos e referências profundas da história nacional. Esse diálogo com a memória é sempre muito valioso na tela dos cinemas; não à toa, temos um Oscar com Ainda estou aqui. E talvez seja por isso também que o filme tenha atraído tanta atenção internacionalmente.


São tantas camadas simbólicas que o espectador chega a se perguntar até que ponto é possível misturar tantos ingredientes sem perder o sabor, como uma vitamina de salada de frutas. O debate sobre o uso da cultura local não se limita à ficção. Ele reaparece, com a mesma força, na COP30.


Durante uma das programações em Belém, a apresentação do tradicional Cordão da Bicharada, gerou reações intensas nas redes sociais. O Cordão da Bicharada é um desfile de animais da fauna brasileira que busca fortalecer a educação ambiental por onde passa. Enquanto no filme a presença da lenda Perna Cabeluda é celebrada como parte de um Brasil plural, em um dos eventos climáticos mais importantes dos últimos tempos, o desfile de jabuti, arara, preguiça, sapos e tatus foi alvo de deboche.


Percebe-se que, nas telas de cinema, o público se permite imaginar ou mesmo viajar na proposta. Já nas redes sociais, sem contextualização adequada, diversos perfis divulgaram a performance de forma rasa, sem nenhum tipo de apuração. Nos comentários de uma publicação feita pelo veículo Metrópoles, surgiram frases como “Comercial da Parmalat”, “Tô com vergonha” e “O Brasil precisava mesmo passar por tamanha humilhação?”. O título do post já influenciava o leitor à uma interpretação tendenciosa pela presença das expressões “rastejando” e “atores” para descrever a apresentação.


Segundo informações do Intercept Brasil, os personagens do Cordão da Bicharada (criado no município de Cametá durante a ditadura) não são simples fantasias, eles representam animais que vivem em ecossistemas da Amazônia e estão ameaçados. A presença desses seres que vivem na natureza visa reforçar que há vidas nesses ambientes e provocar a reflexão sobre os impactos do desmatamento, pois não são só as árvores que sofrem as consequências.


É sintomático que um grupo criado para conscientizar sobre preservação ambiental tenha sido ridicularizado justamente na COP30, evento dedicado à defesa do meio ambiente.


Pesquisas recentes reforçam o problema: segundo dados do IBGE, mais de 40% dos brasileiros afirmam ter pouco contato com manifestações culturais próprias de sua região, o que dificulta o reconhecimento e a valorização de tradições locais. Diante disso, fica claro que não se trata de uma discussão estética sobre fantasias de bichos. Trata-se de como o Brasil comunica e como consome a própria identidade.


O cinema de Kleber Mendonça Filho entende que a cultura popular é ferramenta de narrativa e memória. Já a reação ao Cordão da Bicharada mostra que, sem comunicação social responsável, a mesma cultura pode ser distorcida, reduzida e até ser utilizada como ferramenta partidária. No fim, o elo entre o filme e a COP30 está no que revela que o Brasil ainda precisa aprender a olhar para o próprio país com menos preconceito e mais margem para o subjetivo. E isso exige educação midiática, políticas públicas e, acima de tudo, disposição para enxergar o valor das produções culturais criadas fora das grandes metrópoles.


Publicado por Kamila Campos

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

bottom of page