Plano de Mobilidade Urbana transforma cotidiano de São Gonçalo
- Gabriel de Souza e Sabrina Massuia
- 17 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
Segundo maior município do estado passa por mudanças territoriais e culturais, mas gonçalenses a encaram com desconfiança
O Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob) está transformando São Gonçalo. Previsto na legislação estadual para municípios acima de 20 mil habitantes, o objetivo é assegurar o deslocamento de pessoas e cargas de forma organizada, ao priorizar modos não motorizados. Os projetos incluem a implantação da Mobilidade Urbana Verde Integrada (MUVI), a Ciclorrota e o Selo Bicicleta Brasil.
Em consequência, tais obras têm alterado o cotidiano do segundo maior município do Rio de Janeiro. Os impactos não apenas se encontram no eixo da mobilidade e cultura gonçalense, mas também nas transformações sociais dos moradores, quando a vida privada é confrontada pelas ações públicas.
Capitão Nelson (PL) é o atual prefeito de São Gonçalo, pela segunda vez, após garantir a vitória no primeiro turno das últimas eleições. Ao lado do vice-prefeito João Ventura (PL), o PlanMob é uma continuidade dos projetos da primeira gestão. Até 2028, um dos principais direcionamentos é expandir o desenvolvimento urbano.

As principais mudanças são ocasionadas pela construção do corredor viário para a Mobilidade Urbana Verde Integrada (MUVI), desde julho de 2023. Trata-se de uma parceria entre o governo do estado, por meio da Secretaria de Estado das Cidades, e a Prefeitura de São Gonçalo.
O projeto prevê 32 estações em 18 quilômetros de extensão, cortando 13 bairros, do primeiro ao último da cidade: de Guaxindiba até Neves, respectivamente. Conforme a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), o corredor abrigará o Sistema de Ônibus Rápido (BRS), tanto para linhas municipais quanto intermunicipais. O investimento seria de R$262 milhões, mas, em janeiro de 2025, o orçamento chegou a R$310 milhões, conforme o Portal da Transparência do município.
Houve atraso na entrega do corredor viário. Previstas para conclusão no ano passado, as obras se encontram estagnadas após terem modificado a paisagem local. As construções utilizaram a linha da estação de trem desativada em 2007 a fim de revitalizar áreas abandonadas, mas a consequência foi o despejo de moradores que criaram casas nesses locais, sem ajuda de custo para encontrar outras opções.
Além disso, o alargamento das ruas e a mudança de vias existentes para a passagem do BRS não desafogaram o sistema viário. O efeito, no entanto, foi ao contrário: ao alterar rotas, o resultado foi o afunilamento de transportes públicos e privados, gerando o aumento do trânsito. O historiador e morador Arthur Britto reflete sobre as transformações.
“Eu sinto que São Gonçalo era uma cidade muito abandonada. Mesmo que seja particularmente crítico à gestão atual, as transformações deixaram a cidade mais bonita. Mas essas obras de fato não resolvem os problemas reais, elas são quase obras ‘para inglês ver’.”

Ele cita como exemplo a construção de uma parada de ônibus perto do bairro no qual reside, Galo Branco. “Era beira de uma avenida. Agora tem um lugar para sentar e uma tapagem para ficar enquanto chove, é apenas isso. Aqui é basicamente abandonado e nós dependemos de ônibus, mas não tínhamos nem o mínimo”, conta. Arthur classifica o projeto como um meio de manutenção de poder em um município historicamente marcado pelo coronelismo.
A prefeitura não lançou uma justificativa para o atraso da entrega do MUVI. No entanto, novas escavações estão previstas para serem realizadas na altura de Neves, até o próximo Carnaval, conforme o Diário Oficial. A equipe do Conexão Uerj entrou em contato com a Secretária Municipal de Transportes para receber atualizações sobre as etapas das obras, além de uma nova data para a inauguração do novo modal. Não obtivemos retorno até o momento do fechamento desta reportagem.
Lacunas no MUVI
Apesar de mudanças positivas, o projeto tem gerado incerteza a alguns moradores. Matheus Graciano, 28 anos, entende como as obras podem ajudar na revitalização do bairro, no trecho da Vila Lage, mas pondera sobre a eficiência.
“Porque o gargalo do trânsito é depois de Neves. Esperar qualquer tipo de melhoria de verdade, arborização ou mobilidade é um sonho”. Ele pontua a parada final do projeto, o bairro de Neves, que faz divisa com Niterói. O projeto não prevê a integração entre os transportes de São Gonçalo com o município vizinho.
O plantio das árvores está sendo executado por intermédio de uma parceria entre a Secretaria de Estado das Cidades, do governo do estado e a Secretaria de Conservação da Prefeitura de São Gonçalo. A expectativa é que, até o fim da obra, cerca de 1200 mudas sejam plantadas ao longo de todo o trecho viário.
Britto ainda afirma que o investimento em ônibus como único meio de transporte coletivo não é o suficiente, o que torna o MUVI uma iniciativa limitada e falha. Para ele, o ideal seria o reaproveitamento geográfico e estrutural da cidade para a inclusão de outros sistemas de locomoção, como o trem e as barcas.
“Se houvesse um projeto de mobilidade mais ousado, ao nível estadual, não só municipal, a gente poderia aproveitar as linhas de trem que cortavam São Gonçalo. Mas agora elas foram tiradas para focar em um sistema que é um fracasso, que é o ônibus, que está superlotado e é de baixa qualidade. Você poderia ver outros caminhos que um projeto de mobilidade urbana poderia ter, ainda mais em uma cidade, que também tem o acesso ao mar, então é uma cidade que poderia ter barcas”, aponta o historiador.
Entretanto, por mais que o plano tenha gerado estresse para muitos residentes, como a alteração no trânsito no bairro da Trindade, visando a uma melhoria na fluidez no sistema viário, a revitalização tem impactado de maneira positiva a vida de grande parte da população. “Ao menos, essas obras têm servido para melhorar a vida das pessoas, mesmo que tenham sido feitas jogando concreto em cima de uma coisa (as linhas de trem) que poderia ser até mais útil se fosse bem feita, bem organizada”, Britto complementa.
Cidade Ilustrada
As mudanças feitas no município também incluem uma transformação sociocultural e do paisagismo urbano. Desde 2021, o projeto Cidade Ilustrada, promovido pela Prefeitura de São Gonçalo e sob a curadoria do artista local Marcelo Eco, busca valorizar a arte e a cultura do local, via murais espalhados pelas ruas e pelos viadutos da cidade, além de revitalizar pontos que antes eram marginalizados.
A iniciativa já realizou mais de 20 painéis, como a obra Mobilidade 1, localizada em frente ao Clube Tamoio, o mural “Tamoios” , no bairro Estrela do Norte, e a arte “Tulipas”, na RJ 104, Passarela do Coelho. Como destaque, em agosto deste ano, foi inaugurado o mural “Garotin de São Gonçalo”, que homenageia o trio com raízes gonçalenses Os Garotin e leva o título do primeiro álbum de estreia deles. A arte está localizada na Avenida Presidente Kennedy, em frente à Paróquia Matriz de São Gonçalo, e faz parte do percurso do MUVI, no espaço reservado para as homenagens da Cidade Ilustrada.
A inauguração do painel contou com a presença do trio, que sempre representou a cidade em seus trabalhos. Durante a cerimônia de estreia, um dos integrantes do grupo, Cupertino, se emocionou com a homenagem.
“A gente trabalha no Brasil representando muito nossa cidade. A gente fala na música, foi o nome do nosso primeiro álbum e chegar aqui e ganhar esse presente é uma alegria. Obrigada, São Gonçalo, obrigada, Marcelo Eco”, afirma o cantor, conforme o site oficial da Prefeitura de São Gonçalo.

No entanto, o projeto enfrenta desafios com a constante necessidade da manutenção dos murais. Além dos retoques periódicos, as obras são frequentemente danificadas por pichação, e o uso de tintas de boa qualidade é essencial para a conservação das obras, o que dificulta esse processo por falta de recursos e investimento.
Prestígio nacional
Em outubro, o MUVI recebeu reconhecimento nacional, estando entre as melhores obras públicas e privadas do país durante a Semana Nacional de Engenharia, executada pelo Instituto de Engenharia, em São Paulo.
O projeto também se destaca por cumprir com os requisitos da Agenda 21, originada na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), realizada em 1992, no Rio de Janeiro. A agenda baseia-se em um plano de ação de escala global e local, de competência governamental e da sociedade. Nele, é definido um planejamento para construção de sociedades sustentáveis, em diferentes bases geográficas, que concilia métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.
Reforçando a importância do projeto para o desenvolvimento social e urbano de São Gonçalo, para que se torne uma cidade que, cada vez mais, busque melhoria na qualidade de vida de seus moradores, seja na mobilidade, seja no desenvolvimento de um ambiente sustentável, seja na democratização do acesso à cultura, ao lazer e à saúde.
Publicado por Gabriel Gatto
.png)




