Circuitos Culturais: a nova aposta do Rio para reacender a vida no Centro
- Daniel Goulart e Bernardo Ferreira
- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
Programa da Secretaria Municipal de Cultura integra espaços, artistas e público em sete rotas temáticas para impulsionar a revitalização urbana e cultural do Centro

A Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro lançou, em 3 de dezembro, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o programa de fomento aos Circuitos Culturais do Centro do Rio, inserido no âmbito do Reviver Centro. O Reviver Centro é um programa de revitalização social, urbanística, econômica e cultural do Centro do Rio de Janeiro. O evento reuniu entidades e agentes culturais, com apresentação do secretário Lucas Padilha, que destacou a criação inicial de sete circuitos, promovendo circulação integrada de ações culturais em espaços públicos e equipamentos. Editais de promoção serão liberados até o final de janeiro de 2026, visando revitalizar o centro com ações culturais conectadas.
O programa foca na integração de ações culturais em circuitos temáticos do Centro do Rio, fortalecendo o Reviver Centro por meio de editais públicos para fomentar ocupação e circulação em espaços icônicos. Iniciativa liderada pela SMC, inclui parcerias como a revitalização do Cineclube Macunaíma da ABI, com presença de staff da secretaria e RioFilme. Objetiva ativar instituições e áreas públicas, impulsionando a economia cultural local até janeiro de 2026.
Serão sete circuitos no total, com quatro previstos para operar primeiro:
MAM – Capanema
Cinelândia
Tiradentes
Praça XV
O desenho dessas rotas costuram não só equipamentos culturais de peso, mas também ruas, praças e comércios que historicamente sofreram com o abandono de políticas públicas. A ideia é que a experiência cultural seja contínua e permanente, um convite renovado ao longo de todo o ano.
Com investimento inicial de R$ 3,2 milhões da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o programa prevê desde placas e mapas até grandes eventos mensais, além de ações regulares que possam, de fato, criar rotina, algo essencial para modificar percepções e hábitos, fomentar aparelhos culturais e fortalecer a região que historicamente foi o principal polo cultural da cidade.
A lista de beneficiários do programa é ampla. Dos moradores aos visitantes, das instituições culturais aos estudantes, do comércio local aos trabalhadores da cultura, todo um ecossistema urbano poderá sentir o impacto.
O esvaziamento do Centro do Rio aparece de forma nítida nos números. Um levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que a região abriga hoje pouco mais de 27 mil moradores, um contingente reduzido para uma área que já teve vida urbana muito mais intensa. No mesmo estudo, chama atenção a queda no total de empregos: entre 2016 e 2021, o número de postos de trabalho no Centro caiu de aproximadamente 682 mil para 598 mil, retração que ajuda a explicar ruas menos movimentadas e comércio mais frágil.
Esse quadro também se reflete no mercado imobiliário: em 2021, a taxa de vacância de escritórios na cidade alcançou 38,1%, segundo dados divulgados pelo mercado imobiliário local e divulgados pela Agenda do Poder, resultado de um momento de crise e desocupação elevada no setor corporativo. Juntos, esses indicadores reforçam a percepção de que o Centro vem perdendo vitalidade, tanto na vida cotidiana quanto na sua função histórica dentro da cidade.
A crise, contudo — e talvez sobretudo — é cultural. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, em 2020, o setor cultural no Brasil perdeu 11,2% dos trabalhadores ocupados, recuando de 5,5 milhões para 4,8 milhões de pessoas. Esse movimento atingiu em cheio ambientes dependentes da presença constante de profissionais e público, como teatros, casas de shows, centros culturais e cinemas. Para além dos números nacionais, o impacto da pandemia catalisou encerramentos e mudanças de uso que enfraqueceram dramaticamente a infraestrutura cultural da cidade, sobretudo pelo fato de ser situada no estado com maior proporção de trabalhadores no setor cultural do país, com 8% do seu total.

Esses elementos, demografia reduzida, retração de empregos e crise do setor cultural, não explicam isoladamente o que aconteceu no Centro. Mas ajudam a compreender por que a região, historicamente o coração cultural do Rio, viu seu papel simbólico e cotidiano enfraquecer em meio à crise econômica e às transformações do mercado de trabalho.É nesse contexto que ganha sentido a aposta dos Circuitos Culturais: não como fim em si mesmos, mas como tentativa de reconstrução.
Publicado por Alexandre Augusto
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