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Pessoas trans ainda não são bem-vindas nos esportes

  • Julia Freitas e Rodrigo Vasconcellos
  • 17 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

Debates que acontecem no programa “Zona de Fogo” têm reacendido diferentes pautas nas redes sociais



"Vamos falar de dados", disse a autodenominada influenciadora Letícia Perfeito em um debate sobre pessoas transgênero poderem ou não competir com pessoas cisgênero em esportes. "O British Journal of Sports Medicine comprovou em 2021 que após dois anos de transição as mulheres trans ainda têm de 12 a 38% a mais de força do que mulheres cis", argumentou. O próprio programa no qual aconteceu o debate, Zona de Fogo, veiculado pelo canal do YouTube Spectrum, realiza um trabalho de checagem de fatos em cima das informações trazidas pelos participantes e incluiu uma nota após a fala de Letícia: "[de acordo com o estudo] as mulheres trans apresentaram vantagem em força de preensão, mas desempenho inferior em salto e capacidade pulmonar".


O nome do episódio, "1 mulher trans vs 20 conservadores", resume o conteúdo debatido”. Nas últimas semanas, um corte do vídeo, que contou com a participação da militante LGBTIA+ Michelle de Castro — a mulher trans no debate —, viralizou nas redes sociais. No trecho, surge novamente a pergunta que movimenta discussões no esporte e nas redes: a participação de pessoas trans nos esportes é válida ou injusta?


Apesar de ter falado em "trazer dados", a influenciadora tirou a pesquisa de contexto. O artigo Força, potência e capacidade aeróbica de atletas transgênero: um estudo transversal alerta sobre a problemática de excluir pessoas trans nos esportes sem base científica sólida, cenário que tem sido cada vez mais frequente. Após avaliar 40 pessoas cis e 35 pessoas trans, a conclusão da pesquisa foi que as diferenças encontradas não apontam uma vantagem real de atletas trans, que possuem uma fisiologia complexa, e que é preciso um estudo de longo prazo para confirmar os achados, pois não foi possível afirmar que a terapia hormonal explicaria as diferenças encontradas. Mesmo que estejam avançando, as pesquisas na área ainda são insuficientes para apontar a necessidade de qualquer medida voltada para a comunidade.


Esse trecho sobre o debate se popularizou rapidamente na internet, demonstrando não apenas o interesse popular no assunto, mas também a necessidade de educação a respeito da comunidade transgênero. No Brasil, 90% das mulheres trans e travestis têm a prostituição como principal fonte de renda, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O Trans Murder Monitoring (Monitor de Assassinatos de Pessoas Trans), da organização de Trans da Europa e da Ásia Central (TGEU), indica que o 68% dos assassinatos de pessoas transgênero aconteceram na América Latina e no Caribe, e que o Brasil lidera a lista pelo 18º ano seguido, com 30% dos casos. No total, foram 281 mortes entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025.


Os números não param por aí: pessoas trans têm 70% menos chance de concluir o ensino médio em comparação com a média nacional, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e 82% das pessoas trans ouvidas para o Relatório Dossiê Trans 2024, da Antra, relatam ter sofrido discriminação ou violência física em espaços públicos. Esses números mostram que, antes de qualquer discussão sobre fisiologia, pessoas trans (em especial mulheres) já partem de um ponto de grave desigualdade estrutural. Excluí-las do esporte significa reforçar essa exclusão em mais um eixo da vida — saúde, convivência, pertencimento e oportunidades.


Ainda assim, a discussão continua. Após o debate entre Michelle e Letícia no Zona de Fogo, o também autodenominado influencer Akod questionou se não deveria ter uma categoria específica para pessoas trans. Em resposta, Michelle afirma que sequer existem pessoas trans o suficiente para isso: "Tem 510 mil atletas na NCAA, e menos de 10 são trans." A NCAA é a Associação Atlética Universitária Nacional (ou National Collegiate Athletic Association, em inglês), uma entidade que reúne e representa atletas acadêmicos. Em abril deste ano, o Departamento de Educação dos EUA determinou que os recordes da atleta trans Lia Thomas fossem apagados, além de proibir que outras atletas trans participassem de equipes femininas, após Lia ter vencido o campeonato NCAA em 2022.


Fora das competições acadêmicas, a presença de mulheres trans no esporte competitivo é ainda menor. Nos Jogos Olímpicos, apenas uma mulher trans competiu até hoje, e no Brasil, nenhuma atleta trans integrou delegações olímpicas ou pan-americanas. A maioria das atletas atua em níveis amadores ou comunitários, nos quais o impacto competitivo é totalmente diferente. Apesar de ser possível perceber uma maior mobilização popular a favor de pessoas trans, ainda faltam políticas públicas.


Diante desse cenário, o debate sobre a presença de pessoas trans no esporte deixa de ser apenas uma disputa por regras e métricas de desempenho: ele expõe, sobretudo, a urgência de discutir desigualdade, acesso e dignidade. Enquanto a ciência segue em evolução e ainda não oferece respostas conclusivas, o que já se sabe é que políticas esportivas precisam considerar a complexidade humana antes de reforçar exclusões históricas. No fim, mais do que decidir quem pode ou não competir, trata-se de construir espaços esportivos que reflitam uma sociedade comprometida com justiça, evidências e, principalmente, humanidade.


Publicado por Leandro Climaco

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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