Continue a nadar e você descobrirá as águas abertas
- Laura Marques
- 3 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de dez. de 2025
Nadadora conta como a natação em águas abertas pode se tornar refúgio, paixão e, às vezes, um novo estilo de vida para quem decide se aventurar
Dos 48 esportes olímpicos, poucos se destacam pela ligação tão direta com a natureza como a natação em águas abertas. É verdade que existem modalidades aquáticas que chamam atenção, como o remo, o surfe ou a vela, mas quando o assunto é mergulhar em águas que são o lar para peixes e outros animais marinhos, temos essa ganhadora do ranking de experiências.
Praticada no mar, em rios e lagos, a natação em águas abertas é, por essência, um esporte que exige parceria. Cada braçada vira um teste de resistência física e de foco mental. Como acontece em ambientes naturalmente imprevisíveis, a prática segura conta com boias e a presença de uma equipe de apoio, que geralmente acompanha todo o trajeto de barco.

Em entrevista, a nadadora Ana Mattos, de 48 anos, conta que já participou dos circuitos Aquamundo, Rei e Rainha do Mar, Maratona Aquática Sem Fronteira e de outros desafios individuais. Ana possui formação inicial em Educação Física, é professora, e há mais de 15 anos trabalha em banco. No Rio de Janeiro, completou o circuito Swin Biza, uma travessia de 16 km em Ilha Grande. Este ano, fez parte de uma equipe no circuito O Sertão Vai Virar Mar, realizado na cidade de Piranhas, no Sertão de Alagoas, onde nadou 12 km pelo Rio São Francisco.

Esse é um esporte dentro do quadro de exercícios aeróbicos que, segundo o Ministério da Saúde (MS), além de melhorar a imunidade, fortalece os ossos e os músculos, têm capacidade de aumentar a aptidão cardiorrespiratória, melhorar o condicionamento físico de modo geral, consegue ajudar no controle do colesterol e da glicose.
No percurso de Ilha Grande, Ana e sua equipe tiveram uma companhia mais do que especial. Um tubarão baleia se aproximou do barco de sua equipe e acompanhou uma das atletas que estavam na água na hora do revezamento.
Confira no vídeo abaixo:
“Digo que aquele momento era para ser nosso. Uns dez, quinze minutos antes, passou um revezamento masculino por ali e eles não viram nada. Mas, para a gente, foi diferente. Primeiro apareceram uns 40 golfinhos, como se estivessem avisando alguma coisa. E aí, bem na hora da troca de nadadora, surgiu um tubarão-baleia do nosso lado. Foi lindo demais”, conta.
E quase ficou longe das águas
A nadadora compartilha que aos 5 anos de idade, médicos indicaram aos seus pais a natação como parte do tratamento para problemas respiratórios e alergias. Moradora de Varginha, no Sul de Minas, a pequena Ana iniciou as primeiras aulas em uma escolinha da cidade. No entanto, ela teve algumas inflamações no ouvido por causa da piscina, que se agravou até o ponto em que, aos 6, 7 anos, perdeu totalmente a audição.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), estima que até quase 2,5 bilhões de pessoas no mundo viverão com algum grau de perda auditiva até 2050. O MS, reforça que a auto-observação é fundamental para o cuidado com a saúde auditiva e que, em caso de qualquer sintoma, deve-se buscar o atendimento ambulatorial ou hospitalar para investigação e prevenção de casos mais graves.
“Quando o médico falou ‘Agora tá tudo bem, você está 100% bem. Pode voltar à sua vida normal’. Eu simplesmente pulei na piscina e saí nadando.”
Neste caso da Ana, ela teve que passar por algumas cirurgias. O pós-operatório exigiu seis meses sem qualquer contato com água na cabeça. Nem mesmo debaixo do chuveiro. “Para lavar o meu cabelo, a minha mãe, ou tinha que me levar no salão, ou lavava de canequinha, porque não podia entrar água nos meus ouvidos”, lembra.

Durante o período, as idas ao clube com a família aos fins de semana se tornaram tristes, compartilha Ana. Enquanto os irmãos e amigos se divertiam na piscina, ela permanecia do lado de fora, observando. Ainda não sabia nadar, apesar das aulas iniciais, e acompanhava à distância o movimento na água — inclusive o de um conhecido pai de amigo, surfista e professor informal nas tardes de fim de semana.
Quando, enfim, recebeu a liberação médica para retomar a rotina, a reação foi imediata. Sem hesitar, pulou na piscina e começou a nadar, mesmo sem ter aprendido formalmente a técnica. Segundo ela, a vontade acumulada durante meses foi tanta que a fez entrar na água como se já soubesse. É uma verdadeira história de paixão pelo esporte.
Da piscina para mar e rios
Desde a infância, a natação sempre esteve presente na rotina. Ao voltar para Resende, depois de um período morando no interior de Minas Gerais, ela retomou os treinos com um objetivo simples: voltar à rotina de exercícios na piscina. Procurou então sua primeira treinadora, com quem havia iniciado na natação em 2001. “Ela foi minha primeira técnica aqui, em Resende. Na época, ela comandava uma equipe voltada para águas abertas e foi quem abriu essa porta, que mudaria seu rumo no esporte’’, declara.
“Nadar no mar é libertador.”
A nadadora admite que, no início, resistiu ao convite para se aventurar na maratona aquática. Mas a insistência da técnica falou mais alto. Ela disse: “águas abertas é uma cachaça”. Um dia, acordou e foi.
“Minha estreia aconteceu em Niterói, na Praia de Itaipu – uma prova de 1.500 metros. A sensação ao cruzar a linha de chegada teve um impacto diferente. Quando saí da água, olhei para ela e disse: ‘Eu quero isso para minha vida’.”.
Daí em diante, os desafios foram aumentando gradualmente: primeiro 1,5 km, depois 2 km, 3 km, até chegar a provas mais longas. Tudo isso com muita segurança e confiando na equipe de apoio. Embora continue competindo em piscinas, são as águas abertas que a movem. “Gosto das provas longas. É nelas que encontro meu ritmo.”
A relação com o mar, explica, ultrapassa o esporte. “Quando você entra na água e respeita o mar, ele te devolve muita coisa.” Ela descreve a experiência como um estado de conexão profunda com a natureza. “A cada braçada, é uma imagem diferente lá embaixo. Às vezes você vê a vida marinha, às vezes não vê nada, porque é muito profundo. Mas a energia está ali.”
Para ela, é dessa troca que nasce a sensação de liberdade que só as águas abertas proporcionam. “O mar te devolve um sentimento muito bom. É como se cada nado organizasse alguma coisa dentro da gente.
Origem histórica do esporte
O primeiro registro da prática desse esporte aconteceu em 1875, quando o capitão Matthew Webb se tornou o primeiro homem a atravessar nadando o Canal da Mancha, que liga a Inglaterra e a França.
Anos mais tarde, também tivemos uma representatividade feminina se permitindo nesse desafio. Em 1926, a jovem Gertrude Ederle, de apenas 19 anos, repetiu o feito e entrou para a história como a primeira mulher a completar a travessia a nado entre os dois países.
E desde então a natação se consolida como um esporte democrático para todos os gêneros e idades. Em algumas vezes, é uma atividade que atrai pela localização também ganha na localização, principalmente no Brasil, que conta com 9.200 km de extensão litorânea, somando todos os estados.
Publicado por Kamila Campos
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