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Para que aprender? Na Educação do Rio, basta somar pontos

  • Gisele Veríssimo
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

Educação do estado é nota zero em seriedade


 “E você, já passou de ano?” Pergunta feita por alunos de antigamente perde sentido com novas regras do RJ. (Foto: Ellan Lustosa/Seeduc-RJ)
 “E você, já passou de ano?” Pergunta feita por alunos de antigamente perde sentido com novas regras do RJ. (Foto: Ellan Lustosa/Seeduc-RJ)

Não é novidade que a educação pública brasileira vai de mal a pior. No Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante: a todo tempo, professores da Educação Básica do Estado são surpreendidos com resoluções e normas que, em suma, escancaram a aprovação automática como padrão.


Com a Resolução nº 6303/2024, instituída por decreto assinado pelo governador Cláudio Castro, alunos do Ensino Médio que foram reprovados em até três disciplinas na 3ª série ou seis na 1ª e 2ª séries poderão avançar para o ano seguinte, desde que cumpram um regime especial de recuperação. Além disso, educadores tiveram que engolir as Novas Oportunidades de Aprendizagem (NOAs), carinhosamente intituladas como a “recuperação da recuperação”, aplicadas aos estudantes que não alcançarem cinco pontos ao fim do trimestre, mesmo com três instrumentos avaliativos e após o término do período de recuperação de notas.


Caso o aluno alcance os 15 pontos exigidos para a aprovação já nos dois primeiros trimestres, este(a) estudante não deverá ter “nota azul” no terceiro obrigatoriamente. Com isso, os cursistas entendem que não é mais necessário ir à escola neste período, perdendo conteúdo e deixando de adquirir um conhecimento que os fará falta futuramente. A cereja do bolo está na “bolsa aprovação automática”, uma bonificação de R$3 mil prometida aos docentes que aprovarem 95% dos alunos da instituição. Tudo isso faz com que os estudantes entendam que eles deverão ir à escola, alcançar os quinze pontos e pronto – por vezes, nem farão as primeiras atividades: deixarão para correr atrás no período do famigerado NOA. 


Tais medidas são resultado de uma gestão fracassada da educação pública. Sem concursos públicos desde 2014, a Secretaria de Estado de Educação do Rio (Seeduc-RJ) contrata professores temporariamente para “tapar os buracos”. Estes, assim como os concursados, são mal remunerados, têm péssimas condições de trabalho e ainda têm de lidar com exigências como a aplicação de diversas “provas” que, no fim das contas, não valem como instrumentos avaliativos.


A Seeduc afirma que tais medidas são uma tentativa de solucionar o problema da evasão escolar, mas é nítido que são, na verdade, uma forma de maquiar os números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), no qual o estado do Rio ocupa hoje a penúltima colocação nacional. O Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025 mostra também que, no estado, de cada 100 estudantes, 73 concluíram o Ensino Médio com 19 anos e apenas 10,7% têm aprendizagem adequada em Português e Matemática quando chegam à 3ª série (números referentes a 2024). 


Com isso, temos uma geração que avança série após série sem dominar o conhecimento básico e, conforme apontado pelo Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio (Sepe-RJ), a formação de mão de obra barata para o mercado, o futuro da juventude negado e a ampliação do “apartheid educacional”. São alunos que chegam ao Ensino Médio sem estarem plenamente alfabetizados e muito menos preparados para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), para o mercado de trabalho ou para a vida cidadã.


A pergunta que fica é: qual o valor de um diploma que não representa conhecimento consolidado? Estamos formando estudantes ou apenas preenchendo estatísticas? A educação merece mais do que números bonitos em planilhas; merece investimento e respeito à dignidade de quem ensina e de quem aprende. Parar de maquiar a realidade é o primeiro passo para, de fato, transformá-la.


Publicado por Davi Guedes

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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