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O protagonismo jovem que não cabe na urna

  • Nicole Mendes e Palloma Miranda
  • 3 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 18 de dez. de 2025

Do enfrentamento ao racismo à criação de redes comunitárias, duas alunas da Uerj mostram como o ativismo carioca se reinventa entre o pessoal e o político


Estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) protestaram contra cortes e limitação de benefícios que garantem a permanência estudantil, como auxílio-alimentação e bolsa de apoio a alunos em vulnerabilidade social, em 2024. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) protestaram contra cortes e limitação de benefícios que garantem a permanência estudantil, como auxílio-alimentação e bolsa de apoio a alunos em vulnerabilidade social, em 2024. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

“Decidi ir resolver”. Foi assim que Louise Amorim, estudante de Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), deu início a uma jornada política que começou muito antes da universidade. No primeiro mês de aula na escola secundarista, ouviu colegas de turma fazerem piadas racistas – e, tocada por todas essas ofensas, escolheu o confronto. 


Todos que estavam perto perceberam que Louise não tinha medo de defender o que acreditava. “O grêmio viu essa minha movimentação e percebeu que eu comprava a briga, sabe? Até porque é uma pauta que me toca. Decidiram me chamar e foi aí que eu comecei a me engajar melhor”, conta. 


Na universidade, toda essa bagagem levou a uma nova frente de luta. Foi ali que a estudante percebeu que o engajamento poderia ganhar outras formas – mais organizadas, mais estruturadas, mas ainda movidas pela mesma urgência de acolher e transformar. Junto de colegas, fundou a Rede Trans Uerj, um espaço criado para garantir voz e apoio às pessoas trans dentro da instituição.


Porém, não são todos os jovens que se envolvem tanto com a política quanto Louise. Embora as redes sociais deem a impressão de um ativismo constante, os números mostram outra realidade: a juventude brasileira ainda participa pouco das instâncias formais de poder. Segundo levantamento do Tribunal Superior Eleitoral, apenas uma pequena parcela dos eleitos no país tem menos de 30 anos – menos de 4% dos deputados federais entre 2014 e 2022 estavam nessa faixa etária.


Se, por um lado, a presença da juventude nas estruturas formais de poder ainda é pequena, por outro, a capacidade de mobilização nas ruas e nos campi mostrou força nos últimos anos. O auge dessa energia veio em 2015 e 2016: com início em São Paulo, onde secundaristas ocuparam 236 escolas contra o fechamento de unidades escolares, o movimento se espalhou pelo país. 


Escola Estadual Diadema ocupada por estudantes contra a reorganização escolar que seria implantada em janeiro de 2016 pela Secretaria de Educação. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Escola Estadual Diadema ocupada por estudantes contra a reorganização escolar que seria implantada em janeiro de 2016 pela Secretaria de Educação. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

No Rio de Janeiro, em março de 2016, ao menos 65 escolas foram ocupadas por centenas de estudantes, afetando temporariamente as aulas de cerca de 50 mil alunos. Em outubro do mesmo ano, o ciclo atingiu seu ponto máximo: 961 escolas e institutos ocupados nacionalmente. “Ocupar e resistir” virou palavra de ordem – e não apenas um slogan, mas um método de ação direta que ensinou organização, assembleísmo, comunicação e negociação a uma geração inteira.


O balanço daquele período foi misto no curto prazo, pelos prejuízos acadêmicos, mas apontou um ganho político inegável. Como avaliou Priscila Cruz, presidente do Todos Pela Educação, as ocupações reafirmaram “um protagonismo juvenil forte e importante” nas decisões sobre a própria educação. Em termos práticos, esse aprendizado se converteu em novas formas de atuação: coletivos temáticos, redes de acolhimento, centros e diretórios estudantis mais estruturados, além de iniciativas de incidência institucional. É dessa “escola da ocupação” que brotam trajetórias como a de Louise, que hoje canalizam a experiência de enfrentamento para dentro de espaços formais de mudança, caso da Rede Trans Uerj.


Ainda há, claro, obstáculos persistentes: a criminalização do protesto, a intermitência orçamentária, o desgaste militante e a desinformação que contamina o debate público. Mas, para quem acompanha de perto, o vetor é claro: mais jovens aprendem a transformar indignação em projeto, do corredor da escola à instância colegiada da universidade. 


É nessa passagem que histórias individuais, como a de Louise, ganham espessura coletiva. A frase que abriu sua jornada, “decidi ir resolver”, deixa de ser um impulso isolado e vira prática política: organizar, acolher, negociar e cobrar. No fim, a participação juvenil não cabe só na urna; ela se mede também nos espaços que esses jovens forçam a existir.

 

Origens: ocupações, pandemia e a primeira decisão de “ir resolver”

A trajetória de Louise ganha corpo quando a pandemia desloca a militância do pátio da escola para o território da sobrevivência. Em vez de paralisar, ela reorganiza o impulso inicial, de “decidir ir resolver”, para responder a uma urgência concreta. “No início da pandemia, eu organizei uma ação solidária com cesta básica”. O gesto traduz uma pedagogia prática: a política começa na fila do mercado, na vizinhança, onde a fome não é conceito, é agenda.


Esse mesmo fio histórico acende Thais Freitas, estudante de Serviço Social na Uerj, dirigente da União da Juventude Comunista (UJC), a ala jovem do Partido comunista Brasileiro (PCB), e diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE). Seu ponto de partida foi a combinação entre as ocupações estudantis e a conjuntura turbulenta do “pós-2016”. 


Em 2016, alunos ocuparam a Escola Estadual Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, com o objetivo de apoiar a greve dos professores e pedir melhorias na qualidade da educação. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Em 2016, alunos ocuparam a Escola Estadual Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, com o objetivo de apoiar a greve dos professores e pedir melhorias na qualidade da educação. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

“Eu comecei a me engajar no ano de 2016. Senti a necessidade de me organizar politicamente por entender que é muito difícil lutar por algo coletivo sozinho, lembro que sentia muita raiva e medo”. Para Thais, essas emoções não foram obstáculos, mas o gatilho para agir. A raiva diante das injustiças e o medo do futuro se converteram em impulso político – a consciência de que uma voz isolada se perde, mas muitas vozes juntas podem mudar o rumo das coisas.


“A primeira coisa que fiz foi participar de uma ocupação estudantil”. E o registro do corpo em risco fica para sempre: “A desocupação foi feita de forma truculenta pelo choque com estudantes que desmaiaram por conta do uso do spray de pimenta”, relata a estudante. 


No caso de Louise, a passagem do ensino médio para a universidade só ampliou a vontade de mudança. “A gente decidiu criar a Rede Trans Uerj depois de uma conversa sobre a necessidade de ter um espaço para nós. Conversando com outras pessoas trans, percebi que a situação era crítica. Eram muitos constrangimentos, e não havia para onde recorrer. Não existia coletivo, não existia nada”, conta.


O coletivo nasceu dessa falta, e o aprendizado veio com as primeiras experiências de fala pública. “Quando eu me deparei com uma assembleia da Uerj… fiquei muito nervosa, me tremi, gaguejei”, lembra. Hoje, ri do episódio e o chama de “pedagógico”. Falar em público, ela diz, é uma “habilidade que se aprende”; o essencial é seguir conectando a luta ao trabalho cotidiano. 


Como Louise e Thais mostram, a prática vem antes da identidade militante “pronta”. Não há rito de passagem mágico, mas uma sucessão de gestos que vão se acumulando. São esses exercícios diários de organização que, repetidos, dão forma a uma geração que aprendeu a fazer política enquanto fazia acontecer.

 

Rotina e conciliação: estudo, trabalho, deslocamento e saúde mental

O que sustenta a militância, no dia a dia, é a organização. Louise transforma o caos urbano em planejamento. “É importantíssimo que você organize sua vida, sabe? Eu tenho uma agenda toda organizada”. A geografia pesa: moradora de Santa Cruz, na extrema Zona Oeste, ela cruza a cidade diariamente para estudar no Maracanã e trabalhar em outro município. Conhecer cada ponto da rotina é parte da estratégia para fazer tudo caber no tempo apertado.


A política cotidiana não acontece sem conflito – nem deve. Thais aprendeu a lidar com as divergências sem transformá-las em rupturas. “É preciso lidar com unidade, quando necessária, e também com a crítica política para fazer a diferenciação”, explica. Para ela, o essencial é separar as diferenças de método e projeto das disputas de ego. A unidade que importa é a que se constrói em torno de objetivos concretos.


No seu caso, o desafio vai além do campo das ideias. Entre o trabalho, o curso de Serviço Social e a militância, ela mede o custo da organização em horas de deslocamento e em fôlego mental. “Gasto umas duas, três horas no transporte público”, conta. Por isso, defende uma regra simples: cuidar da própria saúde também é parte da luta. “Quando um militante adoece mentalmente, é muito difícil permanecer lutando”.


Daí nasce o princípio da coletivização – o antídoto contra o esgotamento. “Na militância, trabalhamos bastante a ideia da coletivização das tarefas, que é quando cada um vai pegando o que consegue”, explica. A lógica é simples e potente: dividir responsabilidades, evitar sobrecarga e garantir continuidade. É essa partilha que sustenta o movimento quando a energia individual falha e que transforma o esforço de cada um em permanência coletiva.


Louise chama atenção para outro desafio dentro dos espaços coletivos: o automatismo das decisões. “O que me incomoda é quando as pessoas votam sem discutir. A votação precisa vir depois do debate, não no lugar dele”. Ela defende que o voto seja o resultado de um processo de escuta e confronto de ideias. “Democracia dá trabalho. A gente precisa debater, ler, ouvir o outro. Quando isso não acontece, o espaço perde o sentido”.


O alerta é sobre a forma como as assembleias, muitas vezes, se esvaziam quando o gesto substitui o argumento. “Esse tipo de coisa já não acho democrático. Não acho que é o processo”. Para ela, a democracia não se mede por quantidade de mãos levantadas, mas pela qualidade das discussões que levam à decisão. “Não é só votar, é entender o que se está votando”.

 

Quando “sai da bolha”: da Uerj ao território e às redes

O engajamento das duas também se expandiu para além da universidade, mas por caminhos diferentes. No caso de Thais, a pandemia foi o ponto de virada. A militância que antes se concentrava em assembleias e reuniões passou a ocupar o ambiente digital. “Conseguimos mobilizar principalmente muitos jovens para lutar por vacina e para escancarar o que estava sendo o governo Bolsonaro”. A atuação nas redes gerou efeitos concretos: cursinhos comunitários em Campo Grande, hortas agroecológicas e redes de apoio que funcionaram como pequenas

políticas públicas construídas de baixo para cima.


Alunos da Uerj durante as manifestações de 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Alunos da Uerj durante as manifestações de 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para Louise, o transbordamento veio do confronto direto com o poder público. Ela lembra da ocupação da Uerj, que aconteceu em 2024, marcada pela repressão policial. “O Twitter foi cortado pelo STF no dia da invasão do choque, da batalha da Uerj, onde a gente resistiu”, lembra. Mesmo com as redes fora do ar, o episódio ultrapassou o campus: a resistência física e simbólica virou exemplo para outras universidades e consolidou o movimento como parte do debate nacional.


O trabalho também ganha força quando se conecta a outros movimentos fora do ambiente estudantil. Na Uerj, a Rede Trans pressiona a universidade a olhar para dentro – e também para o país – com uma política afirmativa que vai além do individual. “Atualmente a gente está lutando pelas cotas trans...” explica Louise. “Essa pauta, por exemplo, não é nem para gente. Porque a gente já está dentro da universidade”. Ao voltar o foco para quem ainda está fora, o coletivo transforma o acolhimento em política institucional.


Thais mostra como a militância também aprende com quem atua fora dos campi. “Passamos a integrar as atividades com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e nos aproximamos do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM)”. A experiência com esses grupos traz outro tipo de formação: lidar com a produção de alimentos, pensar a cidade e praticar escuta em ocupações. Essa troca evita que o movimento estudantil se feche em si mesmo – ele se torna uma ponte entre o conhecimento universitário e as lutas populares.

 

Custos e ganhos: o que fica pelo caminho, o que ninguém tira

Militar tem custo – e não é o mesmo para todo mundo. Thais mede esse preço com cuidado. “Perdi sim algumas aulas, alguns dias de descanso... mas nada que me causasse verdadeiramente um dano”. O saldo, diz, vem em forma de aprendizado e rede: disputar ideias, fazer autocrítica, permanecer. Ganhos que não aparecem em boletins, mas sustentam a trajetória de quem escolhe ficar.


Louise chama de perda o que, para ela, virou sanidade. “Eu vejo mais como um livramento”. Em espaços nos quais a afinidade política define confiança, algumas relações se rompem. O que sobra é o vínculo que resiste. “Eu pularia na bala por eles, e eu sei que eles pulariam na bala por mim”. É esse laço afetivo e político que mantém de pé quem encara deslocamentos longos, assembleias tensas e exposição pública.


Reconhecer limites, dividir tarefas, formar porta-vozes e treinar a escuta faz parte desse mesmo aprendizado. É no cotidiano que frases como “eu tenho uma agenda toda organizada” e “quando um militante adoece mentalmente, é muito difícil permanecer na luta” deixam de ser desabafos e viram diretrizes para quem quer manter o coletivo de pé. O legado das ocupações retorna amadurecido: assembleias com conteúdo, alianças claras e objetivos concretos. Não se trata de escolher entre a rua e a instituição, mas de fazer as duas coexistirem – para que a universidade pública, e o que há em volta dela, sejam espaços realmente acessíveis a quem sempre esteve do lado de fora.


Publicado por Renan Mariath

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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