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Circo Voador: 43 anos de história e memória

  • Michel Carvalho e Stephany Nunes
  • 3 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 18 de dez. de 2025

Saiba mais sobre o símbolo da cultura carioca e sua importância para o território


Localizado na Lapa, o Circo Voador movimenta a noite carioca com sua diversidade cultural. (Foto: Wikimedia Commons)
Localizado na Lapa, o Circo Voador movimenta a noite carioca com sua diversidade cultural. (Foto: Wikimedia Commons)

Em janeiro de 2026, o Circo Voador completa 44 anos. Localizado no coração da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro, a casa de shows é parte importante da música brasileira e vai além da noite carioca. Entre a reunião de tribos urbanas e a sua relação com o território, o Circo Voador atua como um agente importante de transformação social por meio da arte e da cultura.


O Circo Voador surge na Praia do Arpoador, na Zona Sul do Rio, em 15 de janeiro de 1982. Um projeto construído coletivamente que se tornou um local importante de celebração da cultura jovem. Naquele verão, nomes como Bebel Gilberto, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Cazuza e Djavan dividiram o palco com grupos como Manhas e Manias, Cobra Coral, Grupo Coringa e a Orquestra Tabajara. Esses encontros entraram para a história.


Ainda em 1982, a casa de shows se muda para a Lapa, onde está até hoje. O Circo construiu sua identidade a partir da estadia no Arpoador, mas foi na Lapa que ganhou notoriedade. O que antes era apenas esse local de entretenimento, hoje ganha um papel muito mais abrangente. 


Lencinho Smith, mestre de cerimônias, trabalha no Circo há 21 anos e se tornou uma referência para falar da história da casa e da relação dela com a cena musical, o território e a sociedade. Para ele, o papel do Circo na construção do som e da identidade da música brasileira surge da oportunidade que muitos artistas tiveram por conta desse palco, seja no Arpoador, seja na Lapa. 


Lencinho Smith faz parte dos 43 anos de história do Circo. (Foto: reprodução/rede social)
Lencinho Smith faz parte dos 43 anos de história do Circo. (Foto: reprodução/rede social)

“O Circo Voador, desde a sua origem, sempre foi palco para muita gente. Ele ajudou a moldar [o som e a identidade da música brasileira] colocando essas pessoas, bandas e artistas em cartaz. Acho que é nesse ponto que o Circo ajudou, sendo esse palco de diversas manifestações da música brasileira, desde o rock nacional, passando pela música carioca dos anos 90, que tinham nomes como O Rappa, Planet Hemp e Pedro Luís e a Parede. Sendo o palco do manguebeat, sendo o palco do hip-hop, sendo o palco do funk, sendo o palco do trap atualmente… ele ajuda a moldar sendo o palco dessas manifestações”, afirma. 


A importância do Circo para o território

Por estar quase “colado” em um dos principais cartões-postais da cidade, o Circo recebe uma atenção a mais como esse espaço consolidado na Lapa, em meio às disputas por espaços na região do Centro. Lencinho conta que a chegada do Circo ao território acontece em um momento de abandono, mas ajudou a dar um novo significado ao território: “A Lapa já tinha sua boemia e sua história com a música brasileira, mas no momento que o Circo chega, ele acaba revigorando o espaço”.


Uma das reflexões de Smith é sobre a ausência do Circo como um parâmetro importante que reflete essa relação com a Lapa. Entre 1996 e 2004, a casa permaneceu fechada por decreto do então prefeito César Maia. Isso aconteceu depois que seu sucessor Luiz Paulo Conde foi vaiado pelo público do grupo Ratos de Porão. A comitiva de Conde entrou indevidamente nas dependências do Circo para comemorar sua vitória nas eleições daquele ano e causou o alvoroço que levou à decisão. Lencinho enfatiza que a ausência do Circo nessa época mobilizou os artistas e a população a darem mais valor a esse espaço.


O Circo ganha ainda mais notoriedade com os Arcos. (Foto: Michel Carvalho)
O Circo ganha ainda mais notoriedade com os Arcos. (Foto: Michel Carvalho)

Agora, quando o assunto é a cena noturna da Lapa, existe uma diversidade de opções. Uma delas é a Fundição Progresso, espaço vizinho do Circo Voador, que também recebe diversas manifestações culturais e tem sua importância social. Existe uma boa relação entre as duas casas de shows e até uma articulação entre elas, para manter a diversidade que a Lapa tanto representa para a noite carioca. Essa diversidade de espaços é algo que demonstra a importância de uma cidade culturalmente plural. 


Lencinho defende a ideia: “A cidade tem que ser plural. Ela precisa ter muitas opções de palco, de pequenos, médios e grandes em diversos lugares. Você tem que ter parques em tudo que é bairro, tem que ter lona cultural, arena, centros culturais, espaços funcionando em plena atividade para você ter circulação artística, seja de música, seja de teatro, seja de artes plásticas. Isso gera oportunidades. Eu acho que esse ponto é que pega um pouco na nossa percepção da importância da Fundição ou de outros espaços pela cidade, de ter realmente uma diversidade, você ter poder de circulação”.


Curadoria e acervo

Essa pluralidade é resultado de uma curadoria. Quando entramos no site oficial da casa e analisamos a agenda de shows, encontramos uma diversidade de artistas e gêneros musicais.


Não importa o mês do ano, é possível encontrar de tudo. Em novembro de 2025, por exemplo, a casa recebe atrações desde Cícero a Pato Fu, passando por Glenn Hughes, Duquesa e finalizando com João Bosco. Nesse palco, também há espaço para artistas novos ou nem tão conhecidos pelo grande público, como o brasileiro Kamaitachi, a banda escocesa Mogwai ou a instrumentista australiana Tash Sultana.


Lencinho explica que não existe um processo preestabelecido. Ele acontece de maneira muito fluida e adaptável, trazendo artistas já consagrados ou as tendências da cena cultural do momento. E isso vem desde os primórdios do Circo. “O que a gente vai fazer é observar o que vem surgindo e trazendo para perto, de forma que haja interesse e relevância na cena cultural. Porque, por exemplo, quando o Circo abrigou o rap, era um início ali [na época], o rap estava surgindo. Quando o Circo abrigou o punk, ainda era, de certa forma, algo novo no Brasil. Então, são coisas que a gente olha e fala ‘de repente daí pode sair alguma coisa interessante’”.


E com tantas memórias sendo construídas a partir desse repertório, o acervo da casa se torna parte essencial da manutenção da sua história. “Eu acho que o acervo sempre existiu de alguma forma. Sempre teve alguém nas internas com vontade de registrar os acontecimentos do Circo e tudo mais”, revela Smith. Esses registros começam logo nos primeiros anos de existência da casa, nas décadas de 1980 e 1990. 


Porém, a ordem cronológica mais exata começa a partir de 2004, e em 2015 o acervo começa a se profissionalizar. Um edital cultural da prefeitura, que fez parte das comemorações dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, possibilitou as mudanças de registro e catalogação do departamento. O valor adquirido por meio dele garantiu a organização mais detalhada do acervo, com a compra de equipamentos importantes e a contratação de funcionários para cuidar do material armazenado. 


O acervo reúne shows, posters e demais registros de diversos shows que passaram pelo palco do Circo. (Foto: Victor Belart/acervo pessoal)
O acervo reúne shows, posters e demais registros de diversos shows que passaram pelo palco do Circo. (Foto: Victor Belart/acervo pessoal)

A educação também faz parte do show

O Circo Voador também retribui toda a importância que recebe da sociedade. Desde 2007, a Escola Joaquim Silva – também conhecida como Estação Joaquim Silva – é um projeto social criado pelo Circo para promover uma educação acessível. A Escola atende, em média, 600 pessoas por ano.


Os cursos e oficinas variam desde aulas de idiomas (alemão, mandarim, francês, entre outros) e tecnologia até reforço escolar e alfabetização de adultos. Tudo isso de forma gratuita. “A importância [da Escola Joaquim Silva] é conseguir promover a educação gratuita ali na Lapa. É uma contrapartida que o Circo dá para o bairro que o acolheu. [...] É um espaço mais educacional do que cultural”, enfatiza Lencinho. 


Além disso, o próprio Circo também contribui na formação de novos artistas, transformando seu espaço em uma sala de aula de produção cultural para as oficinas de instrumentos de percussão (oferecidas pelo bloco Quizomba), as oficinas de danças populares (ministradas pelo grupo Zanzar) e a oficina de acrobacia (do hub cultural Amarathi). Todas essas iniciativas impulsionam o Circo Voador como essa potência cultural e social enraizada na cidade.


“O Circo aí, firme e forte”

A existência e resistência do Circo Voador atravessa gerações. Um local de referência que acolhe e exerce a cultura de diversas formas. Seu papel social ganha outras camadas na sociedade carioca e serve de exemplo de como construir uma união coletiva através da arte.


Para Lencinho Smith, mesmo depois de tantos anos (e com muitos ainda por vir), o Circo seguirá como agente importante de formação de cultura e cidadania para as próximas gerações. Ele coloca o público jovem como protagonista da cena, enfatizando esse papel importante da casa na cultura carioca.


“Só de história o Circo tem 43 anos. Só de reabertura, de 2004 até agora, são 21. Tem pessoas que iam nos anos 1980, 1990, 2000 e continuam frequentando. Mas quem nasceu em 2000, que está com 25 anos agora, quem nasceu em 2004, que está com 21 anos, é frequentador do Circo. De alguma forma, esse lugar ainda desperta a curiosidade dos jovens. Então, eu acho que o Circo tá aí. O Circo está aí, firme e forte. Vivendo, sendo representado e sendo uma referência”, reflete.


A programação de shows e a lista completa dos cursos da Escola Joaquim Silva está disponível no site do Circo Voador


Publicado por Gabriel Gatto

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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