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Debate sobre escala de trabalho 6x1 expõe desafios enfrentados por estudantes trabalhadores

  • Carolina de Vasconcelos e Sofia Molinaro
  • 3 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 18 de dez. de 2025

Em meio à disputa política pela revisão da lei, depoimentos e estatísticas revelam os impactos da escala 6x1 na saúde mental e no desempenho acadêmico de universitários


Movimentos sociais e entidades sindicais realizam ato organizado na cidade de São Paulo no Dia dos Trabalhadores de 2025. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil
Movimentos sociais e entidades sindicais realizam ato organizado na cidade de São Paulo no Dia dos Trabalhadores de 2025. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

“Continuaremos a gritar que esta escala de trabalho que estamos denunciando e trabalhando contra é uma sofisticação do que foi a escravidão.” Essa foi uma das declarações dadas pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) em um debate público na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Na ocasião, Erika discursava sobre os desafios enfrentados por estudantes que trabalham em escala 6x1.


De acordo com os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD C), realizada em 2023 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com foco na educação, 6,9 milhões de jovens de 18 a 29 anos frequentavam o ensino superior no Brasil, e 66,4% deles estavam inseridos no mercado de trabalho (cerca de 4,2 milhões). A discussão sobre a dupla jornada dos estudantes trabalhadores foi ampliada após as movimentações no Congresso Nacional para a criação de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que visa pôr fim à escala 6x1. De autoria da deputada Hilton, a PEC foi oficialmente protocolada na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2025.




Mobilização pela revisão da escala começou nas redes sociais digitais

A criação da proposta de revisão da legislação atual foi profundamente influenciada pelo Movimento VAT, sigla para Vida Além do Trabalho. Encabeçado pelo então influenciador digital Rick Azevedo, o movimento ganhou forças nas redes sociais digitais a partir de 2023, quando Azevedo publicou uma série de vídeos na plataforma TikTok, desabafando sobre sua escala de trabalho intensa como balconista de farmácia.


Diante desse cenário, Hilton publicou um vídeo em suas redes em 1° de maio de 2024, Dia do Trabalhador, no qual anunciou que apresentou ao Congresso a PEC para solicitar o fim da escala 6x1. A parlamentar declarou que atuaria em conjunto com o movimento VAT, liderado por Azevedo, que foi eleito vereador nas eleições municipais do Rio de Janeiro do mesmo ano. Com isso, o debate acerca do tema ganhou projeção no cenário político brasileiro.


Esse modelo de trabalho prevê uma jornada de seis dias de trabalho consecutivos, seguido de uma folga no sétimo dia. No Brasil, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) estabelece que a jornada semanal seja de até 44 horas, com limite máximo de oito horas por dia. No entanto, a CLT não especifica escalas, o que permite a existência legal do modelo 6x1.


Precarização do trabalho é pauta central da proposta

Trabalhadores usam ônibus em deslocamento na volta para casa, na região da Central do Brasil. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Trabalhadores usam ônibus em deslocamento na volta para casa, na região da Central do Brasil. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Previstas no artigo 7º da Constituição Federal, as leis vigentes estabelecem que os trabalhadores têm direito à redução da jornada mediante acordo trabalhista e repouso semanal remunerado, além do pagamento de horas extras com adicional de 50% sobre o valor da hora normal. Também é prevista a jornada de seis horas para os turnos ininterruptos de revezamento.


No entanto, o que observamos no cotidiano da população trabalhadora é um crescente enfraquecimento desses direitos. De acordo com o professor e sociólogo Alexandre Fraga, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a redução da carga horária de trabalho é uma mobilização das classes trabalhadoras que data desde a primeira Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra na segunda metade do século XVIII. Na época, a carga de trabalho podia chegar a 16 horas diárias. Apesar de grandes avanços terem sido conquistados desde então, as legislações trabalhistas ainda estão longe do ideal.


Fraga explica que a luta do 1º de maio, originalmente, reivindicava a divisão do dia em três partes iguais, cada uma composta por oito horas. Assim, oito horas seriam reservadas para o trabalho, oito para o descanso e oito para o lazer, embora isso não aconteça na prática. O Censo Demográfico 2022 do IBGE indicou que mais de 1,3 milhão de brasileiros levam mais de duas horas para chegar ao trabalho. Quando se observa o recorte por cor e raça, a população preta (13,9%) e a parda (11,9%) concentram a maior proporção de pessoas que gastam entre uma e duas horas no deslocamento.


Segundo o sociólogo, quando se soma o tempo perdido no deslocamento ao trabalho à jornada de oito horas diárias que, para muitos brasileiros toma grande parte do dia, o tempo reservado para o descanso e lazer são sacrificados. “Também não é levado em conta, nesse ideal, o trabalho reprodutivo, que é feito sobretudo pelas mulheres: o cuidado das crianças, da casa, o preparo das refeições. O transporte e o trabalho reprodutivo acabam sendo horas que saem das supostas oito horas de lazer e, na verdade, são tomadas pelo trabalho”, acrescenta. 


No caso dos universitários, o estudo é o mais prejudicado. De acordo com a PNAD C, entre os 24,9 milhões de pessoas de 15 a 29 anos com o ensino médio completo e o superior incompleto, 47,2% citaram a necessidade de trabalhar como principal motivo para não estudar.


Reflexos na cultura de trabalho

Wladimir Ferreira, docente do Instituto de Psicologia da Uerj no campo de Psicologia do Trabalho e Organizacional, observa que o Brasil enfrenta uma intensificação da rotina de trabalho, com consequências evidentes nas estatísticas oficiais.


“O trabalhador não é mais aquele trabalhador clássico do filme ‘Tempos modernos’, que só aperta um parafuso da cadeia produtiva. Hoje, demanda-se desse trabalhador um envolvimento muito maior. Então, às vezes, o controle não vem mais de fora. É o próprio trabalhador que vive ansioso, agitado, que vive se cobrando. Isso vai gerando um quadro de sofrimento, angústia e ansiedade.”


A precarização dos vínculos empregatícios, o aumento da terceirização e da informalidade, a falta de perspectivas e as jornadas extensas geram um desgaste físico e emocional dos trabalhadores. Dados do Ministério da Previdência Social revelam que, só em 2024, o número de afastamentos foi de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos psíquicos, mais que o dobro registrado dez anos antes.


De acordo com o professor, é contraproducente pensar o trabalho sem que os trabalhadores participem efetivamente dessa discussão. “É importante que eles possam se posicionar, falar das suas vivências de modo que suas experiências possam nos fazer compreender esse quadro, colocar as devidas críticas àquilo que vem sendo nocivo para a saúde e pensar em alternativas para transformar essa situação.”


Embora o número de deputados federais contrários à revisão da escala 6x1 seja expressivo, o dado não reflete o cenário da discussão entre os trabalhadores brasileiros. Diante do aumento do debate público sobre a redução da escala e da atual conjuntura das condições de trabalho, a população brasileira é, em sua maioria, favorável à mudança da legislação. 


Segundo dados coletados pelo Instituto Datafolha em uma pesquisa de dezembro de 2024, 64% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6x1. Dentre os que aprovam a redução da escala, 81% fazem parte do grupo que acaba de entrar no mercado de trabalho, entre 16 e 24 anos.


“É racional que a geração atual de jovens não esteja disposta a viver pelo trabalho. Os jovens estão pensando em viver experiências, em ter um estilo de vida mais sustentável, e isso também envolve a exigência por tempo de lazer, de descanso e tudo mais além do trabalho”, analisa Alexandre Fraga.


Exaustão que marca a rotina

No caso dos estudantes trabalhadores, o desgaste da atividade discente é somado às demandas da atividade profissional, o que gera consequências psicossomáticas. Muitos transtornos psíquicos têm o trabalho como um desencadeante ou um agravante da situação. São mais prevalentes os transtornos depressivos, ansiosos, e no caso específico do trabalho, o burnout, também chamado de síndrome de esgotamento profissional.


“A síndrome de Burnout, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como uma doença ocupacional, se caracteriza por uma exaustão extrema. Por exemplo, só pensar que está chegando a segunda-feira, já causa uma ansiedade extrema na pessoa, por não querer sair de casa para ir ao trabalho”, explica a psicóloga Heloísa Helena Ferraz, do Departamento de Psicologia Social e Ciências Humanas da Uerj. “Os principais sintomas que esses trabalhadores vêm apresentando podem ser descritos como fadiga, dificuldades de concentração, estresse, isolamento, dores de cabeça frequentes e depressão”.


Sabrina Jacob, editora de vídeo nos telejornais da TV Globo e estudante de Jornalismo na Uerj, trabalha atualmente na escala 6x1 em regime CLT. Hoje, cursando seu último semestre, Sabrina conta que precisou trabalhar desde o início da graduação, já que a renda familiar foi insuficiente para garantir sua permanência na universidade.


“É muito difícil fazer faculdade e ainda trabalhar 6x1, você definitivamente vai abdicar. Eu fui uma pessoa que trabalhou durante a graduação inteira. Não vim de lugar de privilégios, então, eu sabia que para conseguir conquistar os meus sonhos, eu já teria que trabalhar três vezes mais e, por ser negra, cinco vezes mais.”


Além da renda proveniente do trabalho, as bolsas de permanência oferecidas pela universidade também auxiliaram a jovem a se dedicar mais aos estudos. Contudo, a estudante lembra que sofreu para conciliar os horários de disciplinas do currículo que não conseguiu cursar por conflitos de horário com o trabalho. Durante um período, tinha aulas pela manhã, trabalho durante a tarde e ainda precisava voltar à universidade à noite. “Foi completamente desesperador, eu sentia que não aproveitava as aulas direito porque estava cansada”, lembra.


O caso de Sabrina é um entre muitos alunos que precisam trabalhar, e que têm sua formação prejudicada por conflito de horários e precisam adiar sua graduação. De acordo com o relatório Education at a Glance (EaG) 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 25% dos universitários brasileiros abandonam os estudos no primeiro ano da graduação, e apenas 38% completam a universidade no tempo previsto (quatro a cinco anos). Mesmo após três anos da duração prevista do curso, o número de estudantes brasileiros que se formam chega a apenas 49%.


“Sou completamente apaixonada pelo jornalismo, mas durante a minha graduação tive pensamentos do tipo, ‘será que vale a pena viver essa loucura toda?’ Já sacrifiquei minha saúde, saídas com amigos, relacionamentos, e muitas coisas para me manter na faculdade e ter o que eu tenho hoje, o trabalho, os prêmios que eu consegui. Todas as conquistas que eu tive vieram com sacrifício em algum nível”, observa.


Assim como Jacob, Beatriz Cardeal também cursa Jornalismo na Uerj e trabalha sob regime CLT na TV Globo, no modelo 6x1. Devido à própria natureza da profissão, ambas precisam conciliar os estudos acadêmicos com suas rotinas caóticas e imprevisíveis.


Beatriz atua no setor de tecnologia e realiza gravações externas, sem ter um horário de jornada fixo. Normalmente, a jovem descobre sua escala na noite anterior ao trabalho. “Um dia pega em um horário, em outro dia pega em outro, depende muito do que que vai ser a gravação, da pauta e do que acontece no mundo. Às vezes, acontece algo do nada e você tem que ir lá trabalhar”, conta.


O deslocamento é um dos fatores que contribui para o peso da rotina. Beatriz comenta que demora cerca de uma hora no trajeto até a universidade, pois depende do transporte público. O caminho para o trabalho é ainda mais cansativo, devido à demora dos ônibus e ao trânsito intenso ao longo do trajeto.


A carga horária a impossibilita de cursar as matérias necessárias para se formar e, assim, atrasa sua graduação. Em sua visão, a universidade não oferece o suporte institucional necessário para alunos que precisam conciliar a dupla jornada, para além da questão financeira.


A favor do fim da escala 6x1, Beatriz denuncia que trabalhar com jornalismo nesse modelo acaba tomando todo o espaço na sua vida. “Seria muito benéfico para nós, jornalistas, conseguir ter realmente um descanso, não só um um dia em casa, porque o sétimo dia acaba só virando um dia em casa em que você se prepara para o dia seguinte.”


A disputa no Congresso

Uma PEC, Proposta de Emenda à Constituição, é uma ação que tem o poder de alterar a Constituição e precisa ser apresentada por no mínimo um terço do total da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, e pelo presidente da República.


Em seguida, é analisada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), que avalia se o projeto é válido e não viola as cláusulas pétreas da Constituição, como a separação de três poderes e o voto universal direto. Após esse processo, a PEC é avaliada por uma comissão especial, que pode alterar a proposta original.


Depois, a proposta é votada no Plenário, em que sua aprovação depende dos votos favoráveis de três quintos dos deputados. Para entrar em vigor, precisa da aprovação, em dois turnos, da maioria absoluta de senadores e deputados.



As vozes mais críticas à mudança, que vem sobretudo do setor empresarial, insistem que uma revisão da escala seria prejudicial à economia e aumentaria o desemprego. Essa conduta é, de certa forma, cíclica na história política brasileira, como aponta Alexandre Fraga: “Quando na promulgação da Constituição de 88 se alterou a jornada de 48 para 44 horas semanais, também apareciam esses argumentos. E os dados mostram que não causou desemprego nenhum. A mesma coisa quando se tentou aprovar o 13º salário, ou ampliar os direitos das trabalhadoras domésticas.”


Diante disso, o professor salienta que há uma grande aceitação da população em relação à PEC, mas acredita que o texto deva sofrer alterações. A proposta de Erika Hilton preconiza a transição do modelo 6x1 para 4x3, sem redução salarial. “Eu acho que o mais provável é que se aprove a redução para 5x2, que já vigora para a maioria dos empregados”, projeta.


No entanto, é possível que a PEC fique congelada no Congresso até o ano de eleições, quando a pressão do público for maior. “Na PEC da Blindagem, em que a população foi uníssona em dizer: ‘nós não queremos isso’, o Congresso, mesmo quem era contrário, se viu obrigado a aderir de olho nas urnas”, aponta. “Talvez aconteça um pouco isso na PEC da escala 6x1. Se houver grande clamor, já sabemos que a população aprova. Grande clamor nas redes sociais, nas ruas, sobretudo quando estiver mais próximo dessas votações.”


Publicado por Luiza Lara

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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