A morte de Charlie Kirk é um recado para o futuro: não há perigo de paz
- Tomaz Ramos Calixto
- 8 de out. de 2025
- 3 min de leitura
A morte de Charlie Kirk mostra que a violência política ultrapassa as discussões em redes sociais, apontando para um cenário de crescimento da polarização e do extremismo

Charlie Kirk, um ativista político norte-americano, ligado à extrema direita, foi assassinado em 10 de setembro, durante um discurso na Universidade de Utah Valley. Na sequência, em função da violência extrema no contexto do caso, a repercussão também seguiu essa lógica, seja por aqueles que o admiravam, seja por aqueles que o detestavam enquanto líder político, inclusive no Brasil.
Todavia, a problemática desse caso não se estabelece apenas na constatação de um assassinato, mas em suas consequências. A repercussão da morte de Charlie Kirk evidencia que ainda existe uma escalada de violência a ser percorrida. Seja do lado político que o apoia, seja do que o rejeita, não existe trégua, ou cessar-fogo. Portanto, para quem se incomoda com o cenário de polarização política, ou até mesmo é um praticante da arte do “otimismo”, é importante ficar atento, porque, nesse cenário, não existe espaço para o futuro que sugira a pacificação entre grupos políticos adversários. Ademais, considerando a relevância dos Estados Unidos da América (EUA), enquanto potência global, é natural que essa notícia ultrapasse as fronteiras norte-americanas, para pautar o debate em todo o ocidente.
Realizado em um estádio de futebol americano, no Arizona, o velório de Charlie Kirk teria reunido cerca de 70 mil pessoas, de acordo com a Fox News dos Estados Unidos, também corroborado pelo G1, no Brasil. O sentimento comum a um cenário de velório era identificado, como a tristeza e o luto. Todavia, também ao analisar as imagens e vídeos, é possível perceber que todo esse processo também se transformou em um momento político, protagonizado por aqueles que Charlie Kirk defendia e acreditava, como Donald Trump.
O depoimento da esposa e, agora, viúva de Charlie Kirk despertou atenção, pelo cunho verdadeiramente cristão e até surpreendente, em que declarou perdoar aqueles que cometeram o atentado contra seu marido. Em sua fala, Erika Kirk reiterou que não desejava vingança, pelo contrário, que sente falta da empatia e do amor na relação entre as pessoas, sinalizando para uma perspectiva de “tolerância”. Considerando a gravidade do ocorrido, é verdadeiramente surpreendente. Todavia, ela não é a única a se pronunciar, e esse é o fato que imprime o maior teor político ao evento. Trump fez um forte pronunciamento, enaltecendo a importância e o legado de Charlie Kirk, em especial para o grupo conservador americano. Entretanto, em declarações raivosas, responsabiliza e determina, o grupo que ele mesmo denomina como “esquerda lunática radical”. Em nenhum momento, nomeia ou define a quem direciona suas palavras enquanto indivíduo, atribui a um grupo, como um todo, que no caso é opositor a ele, e todos os outros presentes. Além disso, declara sem qualquer pudor que de fato não gosta desses grupos, de forma pessoal.
No Brasil, a repercussão foi também significativa, de grupos conservadores, ou até representantes dessa ala política, como Nikolas Ferreira. De forma geral, o tom das declarações foi de empatia e respeito à memória de Charlie Kirk, assim como classificando como “extremistas” os opositores políticos, em especial os que não se manifestaram publicamente ou demonstraram repúdio à memória do norte-americano.
A questão desse debate não é determinar o lado certo da história. Na realidade, esse acontecimento é um exemplo de que, na atual conjuntura, não se trata mais da verdade, mas, sim, da capacidade de construir narrativas e preservar o engajamento emocional de seus “seguidores”. Porém, isso pode ter um preço. Se não há espaço para uma trégua, os opositores de Charlie Kirk correm um risco de sua integridade ser violada, em consequência de um desejo cego de vingança, e assim sucessivamente. Nesse cenário, surgem os loucos, que se perdem da razão e tudo passa a ser “justificável”. Além do mais, visto que esse debate é muito pautado via redes sociais digitais, torna-se ainda mais problemático. Afinal, para aqueles que já possuem algum nível de experiência no ambiente digital, é possível perceber que a “treta” ou o “conflito” gera muito mais engajamento e repercussão do que a “conciliação” e a pacificidade. Esse raciocínio é válido tanto para a realidade dos Estados Unidos, como para a do Brasil. A obstinação política pela preservação do poder e a busca pela satisfação dos seguidores têm um preço alto. Portanto, uma coisa é certa: o futuro é imprevisível, mas, para os próximos tempos, não há “perigo” de paz.
Com informações da Folha, BBC News Brasil e The Daily
Publicado por Kamila Campos
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