A cruel porta de entrada para jovens nas universidades, em um mundo que não se prepara para suas chegadas
- Daniel Goulart e Bernardo Ferreira
- 3 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de dez. de 2025
Desesperança, hipercompetividade e possíveis horizontes para a juventude brasileira

Em 16 de novembro, Camilo Santana, ministro da Educação, comentou publicamente sobre a intenção de criar postos de prestação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em outros países, como a Argentina, e gerou descontentamento entre os vestibulandos quanto à necessidade da medida. O projeto, apesar de ainda não ter dados que demonstrem a relevância da sua possível implementação, evidencia a insatisfação dos jovens sobre a disponibilidade de vagas e a incerteza sobre o futuro.
Há uma mudança profunda em curso — econômica, social e educacional — que alimenta entre os jovens uma descrença no futuro. A promessa meritocrática, repetida à exaustão desde os anos 1990, fragiliza-se diante de um mercado de trabalho moldado pelo neoliberalismo: menos empregos qualificados, mais exigências e salários achatados. Paralelamente, o custo de vida explode e a especialização vira obrigação, não diferencial.
O resultado é um colapso de expectativas, e oportunistas se aproveitam da fragilidade social para agravar o temor e impor sua ideologia.
“Diploma tem cada vez menos relevância”, esta foi a tese defendida pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), durante uma fala pública na semana em que os jovens de todo o país estão prestando o Enem. A informação, embora não se comprove na realidade, ecoa no imaginário popular e se mistura ao horizonte de desesperança.
Apesar disso, jovens, como Tiago Ferreira, vestibulando de 17 anos, não concordam com a fala do governador do estado mais rico do país. “É importante fazer o Enem, ter um diploma e poder ser um profissional com uma boa base. Para mim, qualquer discurso diferente disso é baboseira, porque não é uma garantia. Pode ter dado certo para uma pessoa, mas não dá para achar que vai dar certo para qualquer um também”, destacou. Por sua vez, Tarcísio cursou o Instituto Militar de Engenharia (IME), uma entidade de ensino superior para militares.
Brasileiros com ensino superior recebem 148% mais do que aqueles que possuem apenas ensino médio, número muito superior à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 54%, segundo dados da Agência Brasil e do Relatório Education at a Glance 2025. Essa informação se torna ainda mais crítica quando levamos em conta que apenas 24% da população entre 25 e 34 anos possui nível superior, número dentro da média para a América Latina, superior à Argentina (19%), mas inferior ao México (28%) e à Colômbia (35%).
Ainda que os índices sejam baixos, outras fórmulas de capacitação podem existir e serem integradas ao mercado e ao projeto de desenvolvimento no país. Este é o exemplo de Itália e Alemanha, que apesar de possuírem números bem abaixo da média da OCDE (47,6%) em população com ensino superior (com 31% e 39%, respectivamente), construíram programas vocacionais que incluem 51% e 47% da sua população adulta no mercado de trabalho. O Brasil, entretanto, possui um dos menores índices de programas vocacionais do mundo (15%), comparável ao Canadá (8%) e à Coreia do Sul (15%), que em contrapartida possuem os mais altos níveis populacionais com nível superior, com 67% e 70%.


Ainda que o cenário seja preocupante e os sintomas sociais demonstrem o agravamento do caso, os otimistas diriam que o caso brasileiro não é tão grave, pois o número de vagas disponíveis anualmente vem aumentando, e esse aumento na oferta, aliado aos programas sociais e à lei de cotas, vem transformando a realidade nas universidades brasileiras. A maior parte dos universitários no país é negra e esta é uma evidente mudança no perfil social. Não há formas de rebater esse fato, mas se o país não está se preparando para acolher um milhão de pessoas em postos de trabalhos qualificados por ano, que para a realidade brasileira seria apenas 0,5% do país, como podem esses universitários terem uma perspectiva mais universal de mudança de vida para todos?
A percepção de que poucos cursos e empregos podem garantir uma estabilidade de vida já está entranhada no universo de possibilidades desta geração. Não à toa o governo federal criou o programa Pé-de-Meia Licenciaturas, que disponibiliza R$ 1.050,00 mensais para alunos de licenciaturas com nota superior a 650 de média no Enem. A capacidade de assimilação dos egressos desses cursos das décadas de 2010 e 2020, período em que houve um grande aumento da população pobre e negra nas universidades nos concursos e nas vagas de emprego com melhores salários, não foi suficiente. Esse entendimento de que não haverá trabalho para todos cria anomalias sociais como a procura sem fim pelos cursos de medicina, direito, algumas engenharias e computação, mas também a baixa adesão de cursos como os de formação para a docência. Esse dado pode ser exemplificado pelas notas dos ingressantes em alguns dos cursos com maior quantidade de matrículas em 2024.

Uma pequena parcela de ingressantes em cursos como pedagogia ou licenciaturas receberia a bolsa criada pelo governo, todavia, a intenção é justamente atrair jovens com notas elevadas. Apesar de a pedagogia e as licenciaturas serem muito procuradas, como educação física, algumas figuram entre as com menor adesão, como é o caso da formação de professores para física e química, com taxa de ocupação por volta de 50% nas públicas e de apenas 2 a 2,5% nas privadas.
Do oportunismo de um sistema incapaz de dar respostas para todos, nasce um mercado que movimenta bilhões todo ano e adentra cada vez mais forte a cultura. O professor universitário Carlos Cavalcanti, formado em pedagogia e educação física, defende que existe, sim, uma pressão constante para abandonar a trajetória acadêmica e apostar em “atalhos de sucesso”. Segundo Cavalcanti, “existe um ecossistema que lucra com essa ansiedade: plataformas, influenciadores, empresas de desenvolvimento pessoal. Esses atalhos vendem a ideia de que conhecimento é um produto e de que basta captar algumas ‘dicas’ para vencer. Isso cria uma sensação de que a universidade é lenta, burocrática, antiga.”
O professor ainda aponta que, se a sociedade está sendo bombardeada por soluções rasas, nós (a universidade) precisamos intensificar o trabalho de formação sólida, crítica e acessível, pois a desinformação é veloz e pode ser sedutora.
Nesse sentido, também é possível enxergar o crescimento do ensino à distância (EAD), sobretudo a explosão de cursos nos últimos 10 anos, como uma forma de distanciar também os alunos dos professores, diminuindo a influência do papel pedagógico da aula. Segundo o Censo da Educação Superior, as vagas EAD no país foram de 727 mil em 2014 para 3,3 milhões em 2024, enquanto as presenciais caíram de 2,4 milhões para 1,65 milhões.
O relatório ainda demonstra que essas vagas presenciais diminuíram substancialmente no âmbito privado, permanecendo apenas cursos com maior capacidade de atrair altas mensalidades e/ou que lidem com o cuidado do outro, como medicina, direito, medicina veterinária e odontologia. Isso pode ser observado pela métrica do número de ingressantes no curso de medicina em 2015 (27 mil ingressantes, 17 mil da privada) e em 2024 (60 mil ingressantes, 46 mil da privada), e atrelada à informação do crescimento na nota dos ingressantes no curso, pode ser entendido como um refúgio para os jovens que não conseguem enxergar um horizonte no mercado de trabalho. Os postos mais garantidos estão ficando cada vez mais concorridos e a competição tem sido a forma de, entre muitas aspas, “integrar” os jovens.

A juventude, no entanto, entendendo a extrema competitividade para a qual foi empurrada, tem pensado iniciativas e formas de não mais ser necessário este processo. Levando em conta a realidade de outros locais, como o processo de admissão da Universidade de Buenos Aires, que os jovens apenas se matriculam e começam a sua trilha na instituição, a defesa do fim do vestibular vem se tornando algo comum. A universalização do ensino no país, embora tão distante, ao menos tem se tornado um ideia cada vez mais popular, e, quem sabe, factível.
Publicado por Alexandre Augusto
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