Na Zona Norte do Rio, a farmácia da floresta encontra a Universidade
- Esther Ferreira
- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
Um dos expositores da feirinha da Uerj, o Pajé Kajanã garante ter a cura para (quase) todas as dores

Em meio ao vai e vem dos milhares de alunos que acessam a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) diariamente pelo portão 1, localizado na Avenida Rei Pelé, ocorre uma feira que reúne diversos expositores. Às terças, a partir das 10h, é possível encontrar os estandes de madeira enfileirados no corredor da Concha Acústica, apresentando em suas “vitrines” desde bolsas e perfumes a bolos e sanduíches. No final, já perto da entrada do prédio, fica a banca do Pajé Kajanã e seus remédios naturais.
Aos potenciais clientes que se aproximam, o pajé abre um sorriso e começa a explicar as propriedades presentes em cada um dos produtos envasados em recipientes plásticos reciclados, dispostos sobre a mesa. Atrás dele, um banner sinaliza os nomes dos medicamentos e traz, em letras garrafais, a frase: “Farmácia Fitoterápica do Índio Pajé Kajanã Tupinikins – Medicina Natural da Floresta”. Entre os compradores, está uma servidora da Uerj que chegou à procura de um remédio para varizes. O pajé logo prescreve uma “garrafada” e promete que seria “tiro e queda”. “Como devo tomar?”, a senhora pergunta. Então, ele instrui que sejam consumidas uma dose de manhã, e outra à noite.
Os medicamentos vendidos são 100% naturais, alguns de uso tópico, outros de uso oral. Há opções de pomadas (para cicatrização, coceiras e tratamento de micose), óleos, sabonetes, xampus, sprays para dores em geral e as garrafadas, que são o destaque entre os produtos. “As garrafadas servem para estômago, refluxo, mas também tem para ansiedade, depressão, insônia, problemas de próstata ou útero, bexiga [...] depende das garrafadas. Cada uma leva entre 10 a 15 qualidades de ervas diferentes”, explica o pajé.

Os remédios são produzidos a partir de ervas como copaíba, andiroba, pracaxi, bicuíba, mama-cadela, canela de perdiz, salsaparrilha, fel-da-terra, barbatimão, cipó cravo, pulga do campo, batata de purga e outras. O pajé conta que a mãe, o avô e o tio foram quem o ensinou sobre medicina indígena. No começo, fazia apenas as garrafadas, depois passou a fazer os sprays e as pomadas: “Entrei na mata pesquisando, pegando uma planta e misturando com outra [...] Até hoje pesquiso toda semana, vou para a mata, estudo as plantas e vou sempre montando fórmulas diferentes, de xarope, de garrafadas, de todo tipo de medicina”.
Nascido em Minas Gerais e da etnia Tupiniquim, ele relata que se tornou pajé muito cedo, aos 6 anos de idade, por ser filho, neto e sobrinho de pajés. De lá para cá, já foi pajé no Amazonas e no Parque Nacional do Monte Pascoal na Bahia, entre Barra Velha e Porto Seguro, onde tratava indígenas Pataxós e de outras etnias da região. “Aí, vim para o Rio de Janeiro, fiquei na Aldeia Maracanã (Teko Haw Maraká'nà), fui pajé lá e depois fui para Maricá. Hoje sou pajé da Aldeia Mata Verde Bonita (Tekoa Ka'Aguy Hovy Porã)”, explica o líder indígena.
Os indígenas sul-americanos consideram os pajés curandeiros, orientadores espirituais e responsáveis pela condução de rituais de cura. Na obra A Queda do Céu, o xamã e líder yanomami Davi Kopenawa define os pajés como “mediadores entre o mundo material e o mundo espiritual”.
Há mais de 50 anos sendo esse mediador, o Pajé Kajanã conta que chegou à Uerj a convite de estudantes. “Me chamaram para fazer palestra, vender medicina… aí eu fui. Através da Uerj, fui chamado para outras universidades e colégios. Quando conheci o Sérgio Potiguara, ele me convidou para ir à Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz], de lá fui convidado para [palestrar] na UFF [Universidade Federal Fluminense], na Ilha do Fundão e Praia Vermelha [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Sempre que eles me convidam, eu vou”, conta.

Ao falar de Sérgio Potiguara, ele se refere ao ecologista e gestor ambiental carioca, fundador do Baía Viva, um movimento socioambientalista de ativismo e proposições políticas. Amigo e apoiador do Pajé Kajanã, Sérgio é professor convidado do curso “Pedagogia das Águas em Movimento”, do Laboratório de Educação Profissional em Vigilância em Saúde (Lavsa/Fiocruz) e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
Atualmente, além de dar palestras e participar de rodas de conversa, o Pajé também leciona medicina ancestral na Aldeia Maracanã e em sua aldeia, a Mata Verde Bonita, em Maricá. Sua banca pode ser encontrada nos arredores do Portão 1 da Uerj todas as terças-feiras, das 10h às 19h.
Publicado por Camily França
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