Gosto doce, prejuízo amargo: os perigos do cigarro eletrônico e sua ascensão entre jovens
- Ana Luiza e Giulianne Sena
- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
Apesar de proibido pela Anvisa, vapes seguem sendo tendência no público jovem

Nos últimos anos, o cigarro eletrônico, popularmente conhecido como vape, deixou de ser um dispositivo desconhecido para se tornar um fenômeno entre adolescentes e jovens no Brasil. Coloridos, discretos, com sabores adocicados e forte presença nas redes sociais, esses dispositivos seguem atraindo novos usuários, apesar de serem proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. Depois de sua ascensão nos últimos anos, a Anvisa reafirmou e atualizou sua proibição em 2024.
Vendidos como alternativa menos prejudicial ao cigarro tradicional, os vapes podem conter quantidades elevadas de nicotina. Alguns estudos já relacionaram o uso prolongado a doenças respiratórias, cardiovasculares e quadros inflamatórios graves nos pulmões, doenças que sempre estiveram relacionadas ao cigarro tradicional.
“Atendemos jovens com falta de ar, tosse persistente e quadros que antes víamos apenas em fumantes de décadas, a inalação de aromas e aditivos podem gerar lesões pulmonares irreversíveis”, explica a enfermeira Cristiana Bernardino, do Hospital Municipal Dr. Moacyr do Carmo, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O uso de vapes cresce cada vez mais, em ritmo acelerado, enquanto seus riscos permanecem pouco compreendidos pela população.
A estética moderna dos dispositivos, a variedade de sabores e a intensa divulgação por influenciadores contribuíram para a popularização entre os jovens. O vape passou a ser associado a estilo e liberdade. Outro fator determinante é a facilidade de compra. Mesmo proibidos, os produtos são encontrados em camelôs, lojas de tabacaria e até entregues via aplicativos de mensagem.
Para Geovani Andrade, 22 anos, estudante de biologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), o vape começou como curiosidade entre amigos. “Usei pela primeira vez numa festa, todo mundo tava usando. Não parece cigarro, é cheiroso, até parece inofensivo”, conta. “Hoje percebo que fico ansioso quando passo horas sem usar. Já tentei parar algumas vezes, mas é mais difícil do que imaginei.”
Consequências já aparecem na rede de saúde
Unidades de saúde têm registrado aumento de atendimentos relacionados ao uso de cigarros eletrônicos, especialmente por irritações respiratórias, alergias e sintomas de dependência.
“Estamos vendo adolescentes com sinais iniciais de doenças pulmonares seríssimas, algo que seria impensável há 15 anos”, afirma a enfermeira. “O impacto a longo prazo pode ser ainda mais sério”, completa.
Apesar da proibição, a venda ainda é vista em diversas lojas, provando que a fiscalização sozinha não é suficiente. Campanhas educativas, políticas públicas voltadas para escolas e ambientes digitais, além de programas de apoio para quem deseja abandonar o vape são considerados fundamentais.
“Precisamos falar com os jovens na linguagem deles e mostrar que o cigarro eletrônico não é moda, é um vício perigoso, que deve ser levado a sério, que pode causar danos irreversíveis à saúde antes mesmo dos 20 anos”, reforça Cristiana.
Um alerta que não pode esperar
Com a popularização acelerada e os riscos cada vez mais evidentes, o cigarro eletrônico se tornou um problema urgente de saúde pública no Brasil. Enquanto a indústria continua investindo em sabores atrativos e designs chamativos, especialistas recomendam cautela e reforçam: não existe forma segura de inalar substâncias químicas aquecidas.
A maioria dos cidadãos não enxergam o cigarro eletrônico como tão prejudicial à saúde quanto o cigarro tradicional. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os riscos mais conhecidos são: doenças pulmonares, como bronquite, bronquiolite obliterante, conhecida popularmente como pulmão de pipoca, problemas cardiovasculares, e risco potencial de câncer. A Anvisa alerta que não são todos os riscos que são conhecidos, e por isso novas evidências seguem surgindo. Doenças geralmente associadas ao uso de cigarro tradicional também podem ser ligadas ao uso de cigarro eletrônico.
Para Geovani, a experiência virou lição. “Se eu soubesse que seria tão difícil largar, nunca teria começado. Parece bobo, mas é viciante de verdade. Agora só quero conseguir parar de vez.”
Iniciativa de prevenção e tratamento
A Prefeitura do Rio de Janeiro oferece o Programa de Controle do Tabagismo. Para participar do programa, é necessário comparecer a uma unidade de saúde e realizar uma avaliação do perfil do fumante. É preciso levar documento de identidade e comprovante de residência. O programa atua com ações para prevenção da iniciação de jovens por meio do Programa de Saúde na Escola e, em parceria com a Vigilância Sanitária, busca reduzir a naturalização do ato de fumar nos ambientes coletivos, respeitando a Lei Antifumo pela cidade.
Publicado por Davi Guedes
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