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Música independente no Rio demanda cifrões e holofotes

  • Guilherme Leôncio
  • 18 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025

Cenário musical carioca busca evidenciar desenvolvimento econômico a partir de políticas de incentivo


A artista Isis Cardoso. (Foto: divulgação)
A artista Isis Cardoso. (Foto: divulgação)

A cena musical independente no Rio de Janeiro reflete uma realidade complexa marcada não só por desafios, mas também por resiliência e inovação. O Rio, conhecido pelo samba, pela bossa nova e pelo funk, vive uma nova fase com o surgimento de outras vertentes do cenário musical periférico.  


Artistas independentes, que lutam para conquistar seu espaço, vêm criando novas possibilidades dentro de um mercado bastante competitivo. A falta de suporte financeiro e logístico é uma realidade para muitos músicos. Além disso, a dificuldade de inserção no cenário mainstream, dominado por contratos milionários, coloca os artistas emergentes em uma posição desfavorecida. 


A cena

A cena independente no Rio de Janeiro, que reúne coletivos de toda a região metropolitana, é comprometida com a construção coletiva desse novo imaginário cultural. 


Isis Cardoso é moradora de Nilópolis, Baixada Fluminense, musicista e aluna de Relações Públicas da UERJ. Em seu projeto solo “Scar”, ela explora diversas sonoridades como pop rock, synth e acústico. Ela explica que “a cena é uma organização não nomeada e formada por ‘microcenas’ de vários territórios, como a Zona Norte, Oeste ou Baixada”. E cada um desses

territórios tem suas próprias vantagens e dificuldades logísticas.


Essa pluralidade de vivências artísticas evidencia contrastes no que tange à movimentação financeira por trás desse setor. Por exemplo, no Rio de Janeiro, existe um eixo territorial Centro-Zona Sul que concentra boa parte da renda e das opções de lazer da cidade, pensando em música e cinema especificamente. Blue Note, Circo Voador e Bip Bip são exemplos de casas de shows que frequentemente esgotam ingressos, mas somente há poucos anos têm diversificado seu repertório. Esses espaços tão tradicionais da música carioca ainda não são permeáveis para agentes periféricos.


Um pouco de história

A produção musical brasileira dos anos 1980 se desenvolveu sob um pano de fundo econômico turbulento. A crise da dívida externa, a escalada inflacionária e a volatilidade cambial reduziram drasticamente a capacidade de importação do país. Ao mesmo tempo, políticas de proteção industrial colocavam barreiras pesadas na entrada de aparelhos eletrônicos. Nesse cenário, equipamentos sofisticados de estúdio, como sintetizadores e baterias eletrônicas, chegavam ao Brasil com atraso e preços absurdos.

 

Com tarifas elevadas, muita burocracia e um mercado concentrado, a tecnologia de ponta se instalou primeiro nos grandes estúdios ligados a gravadoras multinacionais. Eles tinham acesso a canais privilegiados de importação. Já músicos independentes e pequenos produtores precisavam recorrer a alternativas criativas: importações paralelas, compra de usados, adaptações eletrônicas e até a fabricação artesanal de equipamentos. Em universidades e centros de pesquisa, laboratórios de música eletroacústica surgiam como raras ilhas de acesso institucional à tecnologia.


Um bom exemplo foi a Lei n. 7.232, aprovada em 29 de outubro de 1984, que instituiu a chamada Política Nacional de Informática (PNI). Essa lei acabou proibindo ou restringindo fortemente a entrada de computadores e outros equipamentos eletrônicos de consumo, favorecendo apenas empresas nacionais.


Tudo isso começou a mudar apenas no final da década, com o declínio da Ditadura Militar e a reabertura econômica do início dos anos 1990. A redução de taxas e restrições de importação permitiram que equipamentos antes inacessíveis ficassem bastante populares por aqui, acelerando a modernização dos estúdios. O resultado foi uma transformação profunda no modo como se fazia música no Brasil, pensando em estética sonora e técnicas de produção, depois de anos em que a tecnologia avançada parecia existir sempre “lá fora”.


Ser independente

Imagine que você não tenha dinheiro, patrocínio, nem contrato com gravadoras. As apresentações ao vivo em bares e festivais são um dos principais espaços para esse grupo se fortalecer. Apesar de nem todos os lugares pagarem de forma justa, essa é uma das únicas maneiras que esses artistas têm de receber algum valor substancial pelo seu trabalho, além disso, muitos deles encontram nesses eventos uma chance de se conectar diretamente com o público e desenvolver suas carreiras. 


Mas, ainda que possibilite uma maior liberdade de criação, a carreira independente faz com que os artistas concentrem em si mesmos toda a responsabilidade financeira e publicitária de sua marca. Isis nunca assinou com nenhum estúdio, mas destaca que existem possibilidades no mercado fonográfico para quem está começando. “Dentro das grandes gravadoras existem selos para lançar artistas menores. Se der certo, é bom para a empresa; se não der, é demérito do artista. Mas, mesmo assim, até chegar a essa possibilidade, é muito provável que ele precise se inserir um pouco nesse eixo da Zona Sul”.


Dinheiro, redes e acúmulo de funções

Além disso, as redes sociais digitais têm sido fundamentais para os artistas independentes. Contudo, incluindo as dificuldades financeiras de produção do som, eles ainda acabam sendo seus próprios publicitários. E lidar com a dita “economia das redes” e os algoritmos não para qualquer um, pelo menos não deveria ser. “O trabalho do profissional da comunicação é um investimento em alguém que vai saber direcionar o seu trabalho, o seu nicho, e saber as estratégias certas, enquanto você se preocupa com a sua arte. Mesma coisa, a produção. Você tem questões de mixagem, masterização, são muito trabalhosas. E o artista, muitas vezes, toma todo esse lugar da rede social, e acaba tendo que trabalhar ali pesado. Então, é uma relação bastante traiçoeira, eu diria”, explica Isis.


Plataformas como Instagram e TikTok ajudam a gerar engajamento e atrair a atenção dos empresários do segmento musical, mas, ainda que seja possível monetizar músicas nesses espaços, a contabilização do valor destinado aos artistas ainda é muito pouco transparente


As plataformas funcionam menos como fonte confiável de renda e mais como vitrine: essencial para a visibilidade, mas insuficiente para garantir uma estabilidade financeira. A remuneração de artistas musicais nas plataformas de streaming costuma ser vista como vaga e em muitos casos insuficiente, mesmo com os números bilionários que circulam. Por exemplo, o Spotify anunciou que repassou R$1,6 bilhão em royalties a artistas brasileiros em 2024, mas esse montante concentra-se em um universo restrito de sucessos.


Apesar da remuneração precária através das plataformas de streaming, muitos artistas optam por permanecer independentes. Eles aproveitam o espaço do Spotify, por exemplo, para alcançar seus públicos sem a necessidade de um contrato fonográfico. Artistas como BaianaSystem são exemplos de como a autonomia digital pode ser uma estratégia eficaz para ganhar popularidade, sem abrir mão da liberdade criativa. Mas, infelizmente, essa não é a realidade da maioria.


PNAB

Desde sua sanção em junho de 2020, a Lei Aldir Blanc se firmou como o maior mecanismo de socorro e apoio ao setor cultural já instituído no Brasil. A norma previa repasse de R$3 bilhões da União para estados, municípios e o Distrito Federal, com três eixos principais: renda emergencial para trabalhadores da cultura; subsídios para manutenção de espaços culturais (teatros, museus, salas de espetáculo etc.); e financiamento de projetos, editais e premiações. 


Em 2022, a lei emergencial foi transformada em política permanente: a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). A política prevê repasses contínuos de até R$3 bilhões por ano entre 2023 e 2027, totalizando R$15 bilhões. Os recursos podem ser usados para editais de fomento, apoio a espaços culturais, aquisição de bens culturais, manutenção de patrimônio, entre outras finalidades.


Com dados públicos do IBGE e por meio das suas pesquisas MUNIC e ESTADIC de 2021, é possível avaliar a abrangência da lei. Em 2021, 61,1 % dos municípios brasileiros informaram ter distribuído recursos provenientes da Lei Aldir Blanc. Com a chegada da PNAB, a adesão à política continuada cresceu. Até maio de 2025, segundo dados oficiais, aproximadamente 99% das cidades brasileiras aderiram ao programa.


A PNAB abre uma oportunidade inédita de sustentação e descentralização da cultura: os recursos federais passam a estar disponíveis de forma regular, e não apenas em caráter de emergência, permitindo projetos, manutenção de espaços culturais, fomento de produção artística, e apoio a cirurgias culturais em territórios tradicionais, periferias, comunidades rurais e outros contextos de vulnerabilidade. 


Em geral, os dados disponíveis mostram que a Lei Aldir Blanc e sua sucessora PNAB alcançaram, de fato, uma parcela significativa do território brasileiro. A institucionalização da política representa um passo importante na valorização da diversidade cultural e na democratização do acesso a recursos culturais no Brasil.


Uma luz no fim do túnel

Iniciativas governamentais, como os editais da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro (Secec), têm oferecido diversos recursos para a produção e promoção de músicos locais. O Circuito Estadual de Cultura visa apoiar a diversidade musical do estado, com a circulação de artistas em diferentes municípios e contribuindo para sua visibilidade. Isis Cardoso, que também atende pelo nome artístico SCAR, foi contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc por meio da Secretaria de Cultura do município de Nilópolis, e em abril de 2025 lançou o EP “Lado A: O Óbvio Ululante” a partir dos recursos do edital


O cenário musical independente no Rio de Janeiro está longe de ser desanimador. O futuro parece ser promissor para os músicos que conseguem se diferenciar e  ampliar seus horizontes. Isis enfatiza: “Isso é uma coisa ótima em ser um artista independente. Você pode mostrar a sua verdade o mais próximo possível do que você quer que ela seja. E não do que as outras pessoas interpretam como uma verdade para você. Isso é incrível!”.


Publicado por Sara Pimentel

Faculdade de Comunicação Social | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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