Itaú x Nubank: o que uma demissão em massa nos diz sobre o futuro dos bancos?
- Julia Freitas e Rodrigo Vasconcellos
- 8 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de nov. de 2025
Cortes e modernização sinalizam não só novas perspectivas para disputar mercados digitais, mas também podem representar aumento da precarização no ambiente de trabalho

Crédito: Julia Freitas
As recentes demissões em massa observadas no Itaú, e o processo acelerado de fechamento de suas agências físicas, apontam para mudanças significativas no setor bancário brasileiro. Fenômeno da era digital, o surgimento de fintechs nos últimos anos reforçam o acirramento da concorrência entre os bancos tradicionais, como o Itaú, de um lado, e as novas instituições da era digital, como o Nubank, de outro. Esta última, por exemplo, ultrapassou o Itaú e já possui a terceira maior base de correntistas do país, segundo dados deste ano.
A disputa travada para conquistar novos espaços no mercado e ganhar a confiança dos clientes alcançou um novo capítulo com a demissão em massa de trabalhadores promovida pelo Itaú que, em nota, afirmou que tal decisão foi "decorrente de uma revisão criteriosa de condutas relacionadas ao trabalho remoto e registro de jornada" e que "foram identificados padrões incompatíveis com nossos princípios de confiança, que são inegociáveis."
No LinkedIn, vozes se levantaram contra a decisão do banco. "A justificativa de baixa produtividade e home office é muito improvável, para não dizer mentirosa. Em situações dessa natureza, normalmente é corte de custos, mudança de atividades e substituição por automação e IA", disse um usuário da rede.
Em agosto deste ano, o Sindicato dos Bancários de São Paulo já havia questionado o Itaú em relação às demissões e fechamento de agências. A medida afetou, principalmente, os trabalhadores em regime remoto e híbrido, especialmente os ligados ao Centro Tecnológico, ao CEIC e à unidade da Faria Lima, em São Paulo.
Nos últimos 12 meses, o Itaú já havia eliminado mais de 500 postos de trabalho. O mesmo movimento tem se observado com relação às agências físicas. Ao longo de 2024, foram 227 agências fechadas em todo o país. Entre os últimos trimestres, o número de unidades de atendimento caiu de 3.021 para 2.795, evidenciando uma estratégia de enxugamento de operações físicas e avanço no mundo digital.
Uma parcela dos funcionários, por sua vez, têm optado por pedir o desligamento da empresa, atitude que evidencia o ambiente de cobranças e de assédio moral sofridos por esses trabalhadores, informa a secretária de saúde do Sindicato, Valeska Pincovai. Esse cenário evidencia uma nova tendência do mercado que, através da ampliação da automação, vem privilegiando o acesso do cliente pelo ambiente digital, o que resulta em maior exploração dos bancários que permanecem atuando no setor.
A entidade afirma que os cortes ocorreram sem qualquer advertência prévia ou diálogo com os trabalhadores e questiona a legitimidade dos critérios adotados, que não levariam em conta falhas técnicas, condições individuais de saúde ou a própria dinâmica de execução das tarefas. E isso em um contexto de lucros expressivos. Apenas no segundo trimestre de 2025, o banco obteve lucro gerencial de R$11,5 bilhões, o que, segundo representantes sindicais, torna ainda mais injustificável a decisão de cortar postos em massa.
Desde 2015, o Itaú tem aumentado o investimento na área de tecnologia como forma de acompanhar o ritmo do mercado digital. Ainda assim, o número de reclamações por parte dos clientes continua alto. Enquanto o Itaú ficou em 7º lugar no ranking referente ao 2º trimestre deste ano, com 39,35 reclamações por milhão de clientes, o Nubank ficou em 15º lugar, com 12,96 por cada milhão de clientes, segundo o Ranking de Reclamações do Banco Central do Brasil (Bacen), uma posição relativamente positiva em comparação com outras organizações de grande porte.
A praticidade e as estratégias de comunicação modernas adotadas por startups tornam esse tipo de empresa um forte competidor entre os bancos tradicionais. No último dia 30, o Nubank anunciou que abriu um pedido de licença bancária nacional junto ao Office of the Comptroller of the Currency (OCC), ou Escritório do Controlador da Moeda, órgão do Departamento de Tesouro dos Estados Unidos, responsável pela regulação e supervisão de bancos estrangeiros. O banco digital já atua em outros dois países além do Brasil (México e Colômbia), e agora também está mirando nos EUA.
Enquanto isso, o Nubank segue uma trajetória de crescimento acelerado, baseada em “eficiência digital” e expansão da base de clientes. No segundo trimestre de 2025, a instituição conseguiu cerca de 4,1 milhões de novos clientes, elevando sua base para aproximadamente 122,7 milhões contas abertas globalmente, além de registrar aumento expressivo de receita e lucro líquido. Apesar de realizar ajustes internos pontuais, como desligamentos de funções redundantes, essas medidas foram graduais e menos impactantes do que os cortes em massa observados no Itaú.
O contraste entre Itaú e Nubank evidencia diferentes estratégias de crescimento e adaptação ao mercado digital. Enquanto o Nubank cresce de forma nativa no ambiente digital, o Itaú parece acelerar ajustes em sua estrutura, incluindo redução de agências e readequação da força de trabalho, em uma tentativa de se tornar mais competitivo nesse modelo e se aproximar da eficiência digital de fintechs. As medidas refletem não apenas preocupação com produtividade e rentabilidade, mas também o esforço do banco tradicional em acompanhar a transformação do setor financeiro.
Publicado por Leandro Climaco Mendonça
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