Em busca do sonho de não ser mãe
- Juliana Araújo
- 1 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
Crescimento do número de laqueaduras é revelador do cenário de queda na taxa de natalidade no país

A maternidade costuma ser um verdadeiro sonho e o começo de uma nova fase para uma mulher. Desde os primeiros meses de gestação, a mãe e o bebê constroem uma ligação única. Toda a rotina de pré-natal, imaginar que aquele ser que está sendo gerado é alguém. É seu filho. Depois que ele nasce, vem outra maravilha, não é? Os primeiros meses, as novas responsabilidades, os cuidados e as atenções que uma nova vida demanda; essa nova vida que demanda dessa mãe. Mas será que esse é o sonho de todas as mulheres?
Agora, e se esse não for um sonho, mas, sim, um pesadelo para algumas delas? A ideia de maternidade pode ser amedrontadora na mesma medida que é mágica. Até 2022, as mulheres que queriam fazer laqueadura tinham uma série de restrições, porém, a flexibilização da cirurgia revelou o crescente desinteresse das jovens brasileiras de serem mães.
A ausência desse desejo é o motivo pelo qual Helena – nome fictício de nossa entrevistada na casa dos 20 e poucos anos -- optar pela laqueadura. Assim como outras mulheres na sua condição, Helena enfrentou julgamentos de parentes ao compartilhar sua decisão: “Eu nunca quis ter filhos, e eu sei que assim como existem mulheres que sonham em gestar, esse é meu pior pesadelo”, expressa a jovem, que recorreu ao sistema privado para acelerar o processo da cirurgia. “Já cheguei a pensar que, se acontecesse comigo [engravidar], atentaria contra mim mesma para evitar.”
Segundo estudo publicado no I Congresso Nacional Multidisciplinar de Saúde da Mulher, o número de laqueaduras realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2013 e 2022, foi de mais de 720 mil. Desse número, cerca de 49% (equivalente a cerca de 357 mil cirurgias) foram laqueaduras sem relação com o parto cesariano. Esse aumento se deu por uma mudança na lei que causava o impedimento de muitas mulheres que optavam pelo direito de não ter filhos.
Retrocesso em forma de lei
Anteriormente, as regulamentações para se fazer uma laqueadura no Brasil tinham algumas restrições para que fosse autorizada. Levava-se em conta a idade da mulher, que somente tinha o aval da cirurgia se já tivesse completado 25 anos, ou se já fosse mãe de dois filhos vivos. Além disso, era necessária a autorização do cônjuge para a permissão do procedimento, razão pela qual uma fração considerável das mulheres foram impedidas de tomar a decisão por si mesmas, já que sem filhos ou casadas. Se esta ainda fosse a realidade, pacientes como Helena, mesmo tendo certeza de sua decisão, e não possuindo relações com ninguém, não poderia fazer a ligação das trompas.
A mudança deste cenário veio em 2022, quando a Lei n. 14.443/2022 foi sancionada. Com ela, jovens de 21 anos, que não possuem filhos, podem fazer a laqueadura, derrubando também a necessidade da autorização de terceiros. Nos anos subsequentes, o cenário mudou, e as estatísticas de laqueaduras tiveram uma brusca reviravolta: o SUS passou de um registro, em todo o país, de 106 mil em 2022, para quase 200 mil em 2023. Somente no primeiro semestre de 2024, foram 136 mil procedimentos. E em um desses números, está Helena.
Muito além de não gestar
A possibilidade da laqueadura não vem apenas de não ter filhos, mas sim de ter o direito de se privar. Este é o caso de Maria Clara Vieira, de 23 anos, que há três meses escolheu a laqueadura. Ela conta que, além da falta de vontade de gestar, a opção da gravidez é custosa, e sua vida no interior e a falta de renda não permite a criação de um filho: “Cresci numa casa com três mulheres, no interior do Espírito Santo. Minha mãe nunca estimulou a gente a ter um filho e ter esse desejo. A falta de ter crescido sem um ‘pai’ também não me faz confiar em homem algum para ter um filho”, desabafa Maria Clara, que precisa trabalhar em quatro empregos para se sustentar. “Eu tinha total certeza do que eu queria. E se der tudo errado e eu enlouquecer querendo ter um filho na minha barriga, espero ter dinheiro suficiente para uma fertilização. Se eu não tiver esse dinheiro, não tenho por que ter um filho. Jamais vou querer outra pessoa passando as dificuldades que passei! Filho é luxo!”
A laqueadura é o mais eficaz dos métodos, e sua possibilidade diz muito sobre o direito de escolha da mulher em respeitar o seu próprio corpo e a sua vontade. E para Maria Clara, era nítida sua escolha, já que a infertilidade significava também a liberdade: “Sempre tive receio de engravidar e ficar presa à maternidade! Meu maior sonho é viajar o mundo inteiro e morar fora, e não ser mãe”. Além do fator de eficácia, outro ponto que fez Maria Clara tomar sua decisão foi a confiança no método que escolheu. Ela conta que outros, como DIU e anticoncepcionais, lhe faziam mal ou não ganhavam sua confiança, já que tinham o fator de adaptação de cada corpo.
A sensação de ter direito sobre seu próprio corpo fez diferença na vida de Helena também, que contou se sentir mais feliz consigo mesma após o procedimento. Ela conta que não teve o apoio da mãe no início do processo, e que passou por ele quase todo sozinha: “Além de eu sentir que foi uma conquista, principalmente pela minha idade, eu senti que foi uma das poucas vezes que tive controle das minhas decisões”, conta orgulhosa depois que acordou da cirurgia.
A importância do SUS
Um outro impedimento para a realização é o seu custo e a burocratização do processo. Maria Clara conta que, em sua cidade, teve que enfrentar as barreiras dos postos locais para concretizar os exames e o pedido. Mas reforça que a oferta no sistema público de saúde foi o que deu a ela o sonho de realizar o processo: “Fora do orçamento de quem trabalha para sobreviver! Justamente o que me motivou a fazer foi o SUS”, complementa.
Desde que a nova lei entrou em vigor, o Ministério da Saúde orienta os profissionais da saúde a divulgar a oferta da laqueadura para as mulheres que expressam o desejo em realizar o procedimento. Segundo o Ministério, o trâmite começa na Unidade Básica de Saúde, que oferece todo o atendimento com equipe multidisciplinar – enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. Com o preenchimento do termo de compromisso, após um período de 60 dias (para o caso de uma eventual desistência), é feito o agendamento da cirurgia.
Para Maria Clara, a experiência não poderia ser melhor, e após a cirurgia a única preocupação que tinha era quando voltaria a trabalhar: “Tive um atestado de 40 dias, mas no quinto só queria trabalhar!”, ela brinca, e reforça o suporte que teve: “Não poderia ser mais tranquilo! Do início ao fim. E fiz 100% SUS, com três meses de processo da papelada até a cirurgia, sem nenhuma dificuldade. Foi muito rápido”.
Publicado por Leandro Climaco Mendonça
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